Acervo Histórico do Livro Escolar - AHLE

O ACERVO HISTÓRICO DO LIVRO ESCOLAR é formado pelo conjunto de livros escolares das antigas bibliotecas públicas infantis da cidade de São Paulo.

Com 5 mil volumes, o Acervo é composto por cartilhas, manuais escolares de todas as matérias de ensino, antologias literárias e livros de referência de uso escolar, entre outros, do século XIX até a década de 1980 e abrange os cursos primários, os secundários, os de formação de professor e o ensino técnico.
O Acervo está localizado na Biblioteca Infantojuvenil Monteiro Lobato, equipamento da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.

Neste blog serão publicadas informações sobre esse acervo.


Seja bem-vindo.







segunda-feira, 6 de julho de 2009

LIVROS ESCOLARES SOBRE CIVISMO

O ACERVO HISTÓRICO DO LIVRO ESCOLAR – AHLE abrange todas as matérias de ensino. É um acervo representativo, em seu conjunto, da produção didática desde a última década do século XIX até os anos de 1970, proporcionando, assim, a recuperação de modos de comunicação, de linguagem, como também dos conteúdos expressos nas diversas disciplinas de ensino.
Se fizermos um recorte desse acervo sobre civismo, por exemplo, conseguiremos resgatar as diversas abordagens dessa matéria, que mudaram de acordo com o contexto em que foram produzidas e, conseqüentemente, com os objetivos que pretendiam alcançar.
Livros como “Educação Cívica” de 1895 de Tancredo Amaral[1] ou a “Pátria Brazileira”, de Olavo Bilac, com 1ª edição em 1911[2], traduzem a relação entre civismo e identidade nacional, no momento de construção de uma nova nação, com o advento da República.
A “Coleção Pátria” de 1940[3], história em quadrinhos para crianças apresentando personagens do país, abarca o período do Estado Novo (1937-1945) ditadura na qual a escola, principalmente a secundária e a produção didática sofreram um forte controle do Estado.
Ainda entre outros livros, destacamos o “Calendário Cívico” de 1970, de Amaral Fontoura, livro integrante da disciplina Educação Moral e Cívica[4], matéria de ensino que compôs as mudanças na legislação educacional impostas pela Ditadura Militar (1964-1984), com o objetivo de veicular, junto aos estudantes, valores de um Estado autoritário e repressor. Vê-se, portanto, pelos exemplos citados, que a escola foi um espaço privilegiado no que concerne a veiculação de valores e idéias.
O ACERVO HISTÓRICO DO LIVRO ESCOLAR possui inúmeros livros sobre civismo e o apresentado é só uma amostra da vocação desse Acervo quanto à pesquisa na vasta área da historiografia educacional.


[1] AMARAL, Tancredo. “Educação Cívica” – A história de S. Paulo ensinada pela biographia dos seus vultos mais notáveis. (obra destinada aos estabelecimentos de instrução popular). RJ, Alves e Cia. Editores, 1895.

[2] BILAC, Olavo e NETTO, Coelho. “A Pátria Brazileira” (para os alunnos das escolas primárias), RJ, Fco. Alves, 1926. A primeira edição é de 1911.

[3] MURILO, Rafael e outros. “Grandes Figuras do Brasil”. Coleção Pátria. RJ, Gde Consórcio Suplementos Nacionais Ltda. V. 2, 1940.

[4] O ACERVO HISTÓRICO DO LIVRO ESCOLAR possui uma centena de livros de Educação Moral e Cívica, entre outros títulos sobre o tema.´

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Uma viagem ao mundo da higiene



Higienismo, termo que designa os cuidados com a higiene ou a formação de hábitos sadios, foi uma preocupação dos poderes públicos nas primeiras décadas do século XX.
O processo de urbanização que concentrou a população implicou no desafio em melhorar as condições do meio para a eliminação de doenças e epidemias, tais como tuberculose, malária, varíola etc. Desse modo, o habitante da cidade precisava adquirir novos hábitos em relação à habitação, a alimentação, ao saneamento e a higiene.
A criação do Instituto de Higiene,[1] em 1918, em São Paulo, foi um exemplo da necessidade de instrumentos para se enfrentar e melhorar as condições sanitárias da cidade.
Dentre os recursos utilizados para a disseminação de novos hábitos à população, sem dúvida a escola foi uma das instâncias para informar e educar as crianças sobre saúde e higiene.
Assim, vários livros didáticos ou de uso escolar foram editados abordando esses ensinamentos. O ACERVO HISTÓRICO DO LIVRO ESCOLAR mantém alguns títulos que tratam dessa questão desde os anos de 1930 até 1970, claro que demonstrando mudanças na abordagem do tema Afinal o livro didático deve ser analisado como parte de um contexto mais amplo e nesse sentido, é um material que pode traduzir aspectos culturais e sócio-econômicos de um período.
Destacamos um desses livros em especial, não só pela temática, mas também pela autoria. Trata-se de “Aventuras no mundo da Higiene” de Érico Veríssimo.
O livro, da editora Globo de Porto Alegre, foi editado em 1939 e traz, de forma lúdica e com inúmeras ilustrações de João Fahrion, uma viagem, nas palavras do autor, sobre as noções de higiene.
Utilizando como recurso o encontro de duas crianças, uma magra e pálida e outra robusta e a figura do dr. Salus, o autor trata de lições de higiene, de alimentação e de bons hábitos em geral.
Esse e outros livros sobre o tema estão a disposição de interessados e pesquisadores. (2)




[1] Sobre o Instituto de Higiene ver ROCHA, Heloisa Helena. “Higienização dos Costumes: educação escolar e saúde no Projeto do Instituto de Hygiene de São Paulo (1918-1925)”, Campinas, Mercado de Letras, 2006.
(2) A Coleção "Bibliotheca Popular de Hygiene", por exemplo, de autoria do Dr. Sebastião M. Barroso, publicada nos anos de 1930.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Livros de formação de professores: as antigas Escolas Normais






A Biblioteca Monteiro Lobato foi criada em 1936, como equipamento voltado à criança. Sua primeira diretora, Lenyra Fraccaroli, à frente da Biblioteca até 1964, foi normalista da Escola Caetano de Campos, antiga Escola Normal de São Paulo.
Tanto a localização da Biblioteca, próxima a Escola Caetano de Campos[1], quanto a formação de Lenyra foram fatores para a aquisição de um considerável acervo de livros que serviram aos estudantes das Escolas Normais.
Assim, nos registros sobre a história da Biblioteca encontram-se depoimentos sobre a presença de normalistas, que procuravam mapas e gravuras para as suas aulas e também livros para os seus estudos.
Com isso, o Acervo Histórico do Livro Escolar – AHLE, constituído pelos livros resguardados das antigas bibliotecas da cidade de São Paulo, dispõe de mais de 200 títulos destinados aos alunos das antigas Escolas Normais.
Autores, tais como, Cleofanes Lopes de Oliveira, Silveira Bueno e Lourenço Filho, professores da Escola Caetano de Campos, estão representados no acervo.
Por exemplo, o livro "Testes ABC" de Lourenço Filho,[2] ainda com o material dos testes intacto ou "Introdução ao estudo da Escola Nova",[3] do mesmo autor; os manuais pedagógicos, que serviam para a orientação da prática do magistério, como o "Manual do Professor Primário",[4] de Theobaldo Miranda dos Santos, entre outros, fazem parte do AHLE.
Na década de 1930 foram editadas inúmeras publicações voltadas para a formação dos professores, pois nesse período o movimento da Escola Nova, no qual educadores se empenharam em traçar novos rumos à Educação em contraposição ao chamado tradicionalismo pedagógico, tomou corpo no país. A expansão da educação também motivou que os poderes públicos se empenhassem em aprimorar a formação e consolidar a carreira dos profissionais de ensino.
Nesse sentido, livros de órgãos oficiais como "Leitura e Linguagem no Curso primário", do Ministério da Educação, [5] com sugestões para a organização e o desenvolvimento de programas de ensino, retratam as propostas e os conteúdos escolares presentes nas várias reformulações pelas quais passou a Educação.
Outro livro, "Organização dos Museus Escolares",[6] por exemplo, traz as diretrizes do Código de Educação de São Paulo, de 1933, instituído por Fernando de Azevedo, então Diretor da Instrução Pública do Estado, que previa a formação de museus nas escolas.
Destacamos, ainda, o "Manual de Califasia e Arte de Dizer" de Silveira Bueno[7]. Na apresentação o autor, professor de português e de califasia da Escola Caetano de Campos, traz a distinção entre califasia e a arte de dizer. Califasia como o bem pronunciar vocábulos com a máxima perfeição mecânica possível, o articular das consoantes etc. Bueno foi jornalista, poeta e professor e seu livro é precursor dos cursos de oratória ou de como falar em público, pois contempla o gestual, a posição do corpo, a respiração, a fisionomia etc.
Bem, esta foi uma amostra dos livros do AHLE sobre a formação de professores. Espero ter ativado a curiosidade dos que trabalham ou pesquisam sobre Educação. Outras informações acerca do tema serão postadas oportunamente.



[1] A Escola Caetano de Campos, anteriormente Escola Normal de São Paulo, é conhecida também como Escola Normal da Praça. Sua origem é de 1846 e foi a primeira escola para a formação de professores de São Paulo. Reabriu, definitivamente em 1880. Para mais informações, verificar principalmente MONARCHA, Carlos. “ Escola Normal da Praça: o lado noturno das luzes”. Campinas, UNICAMP, 1999.

[2] FILHO, Lourenço. “Testes ABC – para verificação da maturidade necessárias à aprendizagem da leitura e da escrita”.São Paulo, Ed. Melhoramentos, 3ª. Edição revista, 1947. (1ª. Edição em 1933).

[3] LOURENÇO FILHO, Manoel Bergstron. “Introdução ao estudo da Escola Nova”. São Paulo, Melhoramentos, 1967. Consultar SAVIANI, D. “História das Idéias Pedagógicas” Campinas, Autores Associados, 2007, que traz informações sobre essa publicação.

[4] SANTOS, Theobaldo Miranda. “Manual do professor Primário”. São Paulo, Cia Ed. nacional, 3ª. Ed., 1954.

[5] MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E SAÚDE. “Leitura e Linguagem no Curso Primário”. Rio de Janeiro, Publicação do Instituto nacional de Estudos pedagógicos – INEP, 2ª. Tiragem revista, 1951.

[6] BUSH, Leontina Silva. “Organização de Museus Escolares”. São Paulo, Ed. Brasileira, 1937.

[7] BUENO, Silveira. “Manual de Califasia e arte de dizer”. São Paulo, Livraria Academica, 1939. Primeira edição, 1930.

terça-feira, 10 de março de 2009

Colégio Abilio

O livro "O Ateneu", publicado em 1888 por Raul Pompéia (1863-1895), trata de um internato de meninos no Rio de Janeiro do século XIX. É literatura pedida em vestibular e muito usada nos cursos de Educação, por reproduzir as relações conflituosas e autoritárias dentro de uma escola.
Assim, a escola  é metáfora para retratar a sociedade brasileira do fim do século XIX. “Vais encontrar o mundo”, referência na obra de Pompéia sobre a escola.
O livro tem um quê memorialístico, pois Raul Pompéia estudou no Colégio Abílio da Corte, no Rio de Janeiro, escola de propriedade e dirigida de 1870 até 1879, por Abílio César Borges (1824-1891) médico e educador baiano conhecido como Barão de Macaúbas[1] (referência a um município da Bahia).
O Colégio Abílio e o seu diretor estão representados no relato de Pompéia.
"O Ateneu" é considerado uma das obras mais importantes do realismo e da literatura brasileira do século XIX.
O ACERVO HISTÓRICO DO LIVRO ESCOLAR tem um livro sobre Castro Alves[2] e nele, uma fotografia antiga do Colégio Abílio, frequentado também pelo poeta.
O prédio ainda existe no bairro de Laranjeiras, onde funciona o Instituto João Alves Afonso, atual creche da Santa Casa de Misericórdia.
Fonte: "História de Castro Alves", 1947

[1] Sobre as escolas do Barão de Macaúbas verificar, entre outros, VALDEZ, Diane. "Mens Sana in Corpore Sano. Os Colégios do Dr. Abílio César Borges". In: www.histedbr.fae.unicamp.br/navegando

[2] MACHADO FILHO, Aires da Mata. "História de Castro Alves". Belo Horizonte, Edição de “ROCHA”, 1947.

Livros escolares de Duque Estrada



Joaquim Osório Duque Estrada (1870-1927), foi poeta e jornalista e é conhecido como o letrista do Hino Nacional brasileiro. A música foi composta em 1822, por Francisco Manuel da Silva, como Hino da Independência e aproveitada após um concurso vencido por Duque Estrada em 1909, para a escolha da melhor letra do Hino Nacional. Com isso, neste ano de 2009, a letra faz cem anos. Por conta dessa efeméride, os descendentes do autor estão organizando uma exposição e a publicação de um livro, que sem dúvida, serão divulgados pela imprensa. O que poucos sabem é que Duque Estrada foi também educador. Professor da Escola Normal, professor de História do Colégio Pedro II e autor de livros escolares. O ACERVO HISTÓRICO DO LIVRO ESCOLAR possui dois livros do autor: “Histórias Maravilhosas”, Rio de Janeiro, Livraria Fco Alves, 1946, 4ª. Ed., com contos adaptados para as crianças em dois volumes e “Noções de História do Brasil - para as escolas primárias do Distrito Federal”, Livraria Fco. Alves, 1924, 5ª. Ed.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Livro escolar: o sentido do efêmero


Walter Benjamin[1] em seu relato sobre um colecionador alemão de livros infantis atenta para o fato de terem sido salvos da máquina de triturar papel. Este comentário nos remete ao livro escolar, material pouco conservado, considerado de uso momentâneo e com isso, objeto de consumo descartável, prestes a desaparecer.
Sem dúvida, o livro didático compõe a própria história do livro, mas é desvalorizado enquanto produção cultural, talvez pelo sentido do efêmero que o acompanha, porque se desatualiza, se desgasta e é facilmente substituível. Poucas foram as instituições que preservaram o livro escolar.
Assim, qual o propósito de resguardarmos livros escolares antigos? Em um primeiro momento surge a idéia de memória, de recuperação de tempos e práticas antigas, da reconstituição dos bancos escolares, das primeiras professoras e por aí vai.
Chama a atenção o interesse e a curiosidade, muitas vezes afetiva, que esses livros despertam na lembrança das pessoas. Testemunhamos frequentadores da Biblioteca Monteiro Lobato que nos pedem que mostremos livros de sua infância escolar ou pais desejosos de apresentarem aos filhos os livros em que foram alfabetizados. Em tempos de mudanças rápidas, a impressão de rupturas e não de um passado próximo e coletivo motiva a busca dessas representações, como memória, tão em voga atualmente.
Mas o objetivo principal do Acervo Histórico do Livro Escolar – AHLE, que não exclui sua vocação de despertar lembranças, é atender a necessidade de reunirmos fontes para a investigação científica, principalmente por se tratar, como apontamos acima, de um material que poucas instituições conservaram.
É importante ressaltar também que muitas vezes livros sem uso podem se transformar em um acervo de valor documental. Eric Hobsbawm[2], sobre as fontes de pesquisa para a história afirma que é o olhar investigativo ou as questões postas pelo pesquisador que transformam documentos em fontes de pesquisa. Em geral não existe material algum até que nossas perguntas o tenham revelado, afirma o autor.
Afirmação, sem dúvida, reveladora da origem do AHLE.


[1] Livros infantis velhos e esquecidos. In: Reflexões sobre a criança, o brinquedo e a educação. SP, Duas Cidades e Ed. 34, 2002.

[2] Sobre a História. São Paulo, Cia das Letras, 1998. P. 220.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

A origem do Acervo Histórico do Livro Escolar

As bibliotecas infantis na cidade de São Paulo datam da década de 1930. A primeira foi criada em 1936, com o nome de Biblioteca Infantil Municipal, atual Biblioteca Monteiro Lobato. Essa Biblioteca fez parte do projeto do Departamento de Cultura, na gestão de Mário de Andrade, então seu diretor.
Por ser a primeira biblioteca pública voltada para a criança e o jovem e ter um projeto de se tornar um centro de cultura em torno do livro e da leitura, sua atuação teve grande repercussão, tornando-se exemplo e embrião de uma rede de bibliotecas que se instauraria na cidade de São Paulo. Nos anos de 1940 foi criada uma segunda Biblioteca Infantil no bairro do Itaim e mais uma dezena nos anos de 1950.
Essas primeiras bibliotecas acumularam livros de todos os gêneros, principalmente de literatura infantil, mas também livros escolares que as crianças usavam para as suas pesquisas.
Com o tempo, esses livros foram sendo retirados das estantes por estarem desatualizados ou muito manuseados.
Essa é a origem do Acervo Histórico do Livro Escolar. Em uma pesquisa iniciada em 2006, nesses livros que estavam fora de uso mas ainda mantidos pelas bibliotecas, percebemos que havia um número significativo de livros escolares antigos que permitiam a organização de um acervo para pesquisadores.
E foi o que aconteceu. Formamos, então, o ACERVO HISTÓRICO DO LIVRO ESCOLAR, acervo especial da Seção de Bibliografia e Documentação da Biblioteca Monteiro Lobato. Essa Seção é voltada para pesquisadores, com quatro acervos especiais: o Acervo de Literatura Infantil, representativo de parte da produção nacional de literatura infantil; o Acervo Monteiro Lobato, com farta documentação sobre o autor; o Acervo Memória da Biblioteca, com material que recupera a história da Biblioteca Monteiro Lobato e do Departamento de Cultura e mais recentemente, o Acervo Histórico do Livro Escolar.
Esses acervos são procurados pelo público em geral, por pesquisadores, estudantes e professores de várias áreas do conhecimento.