Acervo Histórico do Livro Escolar - AHLE

O ACERVO HISTÓRICO DO LIVRO ESCOLAR é formado pelo conjunto de livros escolares das antigas bibliotecas públicas infantis da cidade de São Paulo.

Com 5 mil volumes, o Acervo é composto por cartilhas, manuais escolares de todas as matérias de ensino, antologias literárias e livros de referência de uso escolar, entre outros, do século XIX até a década de 1980 e abrange os cursos primários, os secundários, os de formação de professor e o ensino técnico.
O Acervo está localizado na Biblioteca Infantojuvenil Monteiro Lobato, equipamento da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.

Neste blog serão publicadas informações sobre esse acervo.


Seja bem-vindo.







quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Significar o guardado



Um dos livros mais antigos do ACERVO HISTÓRICO DO LIVRO ESCOLAR - AHLE
ANDRADE, Maria Guilhermina L. de. Primeiro Livro de Leitura. Rio de Janeiro. Ed. American Book Company , 1894.
AHLE - Um ano do blog

O tempo passa rápido. Expressão corriqueira que me inspira para relatar sobre a experiência deste Blog. Já um ano? Contraditoriamente o tempo seleciona. Por que? Para quem trabalha com a preservação de fontes para a pesquisa, o tempo quase sempre é atributo.
Em relação ao livro escolar, objeto central deste Blog, duas considerações sobre esse material: primeira, livros escolares são raros porque são descartados e com isso, raros porque escassos. Segunda, raros porque antigos? Não é bem assim. Não é só a antiguidade uma qualidade, mas também a forma, o conteúdo e o que representa a fonte de pesquisa.
Revisitei algumas definições para compreender melhor o significado deste acervo.(1) Desse modo, no exame do conceito de “acervo”, palavra de origem latina que significa acumulação e muitas vezes referenciada como velharia, vem a idéia de passado, da acumulação de indícios, que se materializam em documentos, em bens ou em patrimônio. A quantidade é uma das variantes a que se submete o acervo que compõe os arquivos, as bibliotecas, os museus e os centros de documentação, onde encontramos um conjunto desses indícios, identificado com o que denominamos fontes de pesquisa.
Por outro lado, o termo “fonte” está associado à origem, à procedência, a fonte de consulta que fornece informações. Na filologia, área do conhecimento que privilegia o estudo de documentos escritos antigos, fonte é termo identificado como texto ou documento original. As fontes de pesquisas e as discussões em torno da especificidade desses documentos fazem parte de estudos como o de RODRIGUES (2) (1969, p.143), que nos informa sobre os instrumentos dos trabalhos históricos, classificando-os em fontes primárias ou originais, como aquelas que contém informações de testemunho direto dos fatos e fontes secundárias ou derivadas, que contém uma informação colhida por terceiros. Nesse sentido, o livro escolar pode ser fonte primária ou secundária de pesquisa, de acordo com o seu conteúdo.
Como usar essas fontes? Os livros escolares expressam idéias e assim, precisam ser historicizados, ou seja, entendidos a luz do contexto em que foram produzidos. Os textos deste Blog apresentaram, mesmo que de forma breve, essa preocupação.
O Blog teve treze textos ao longo de 2009. Fora o de abertura, os outros foram temáticos e descritivos com o objetivo de divulgar certas especificidades do ALHE. O próprio trabalho de pesquisa para essa divulgação, o atendimento a pesquisadores aqui na Biblioteca ou pelo emeio, abrem cada vez maiores possibilidades do acervo. Temas nem pensados, tornaram-se mais uma área de pesquisa. Como exemplo, o Design. Estudantes se interessaram pelas ilustrações, pelo formato, capa etc., ou seja, pelo suporte material dos livros ao longo do tempo.

Como arquivar é uma palavra que pode significar guardar, no sentido de deixar de lado e esquecer, aqui a preocupação é guardar para extroverter. É através de ações que o guardado se revela e assim este Blog é um dos instrumentos que tenho para mostrar esse acervo e com isso imprimir um significado ao guardado.
Promessa para o próximo ano? Claro! Escrever mais e trazer mais informações sobre o AHLE.

(1) Parte dessas definições foi desenvolvida no texto: Acervo de fontes de pesquisa para a História da Educação brasileira: características e conteúdo, texto integrante do projeto: Navegando na História da Educação brasileira, disponível no site do HISTEDBR, relacionado neste Blog.

(2) RODRIGUES, João Honório. A Pesquisa Histórica no Brasil. S. Paulo, Cia Ed. Nacional, 1969.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

A presença do negro no livro escolar






Capa de livro didático, com o título Infância Brasileira retratando crianças loiras, tipo pouco comum no Brasil.
"Quarto livro", destinado ao curso primário.(1)



No mês de novembro comemoramos o Dia Nacional da Consciência Negro em homenagem à Zumbi dos Palmares, símbolo da resistência negra no país, morto em 20 de novembro de 1695.
Zumbi foi um dos líderes do Quilombo de Palmares, fundado em 1596 e localizado na Serra da Barriga, entre os Estados de Alagoas e Pernambuco.
Nos livros didáticos a presença da população negra vem carregada de preconceitos, de distorções e de omissões.
Assim trago alguns exemplos de livros escolares cujas ilustrações e textos revelam que a presença do negro nesses livros, como integrante da população brasileira, é mais ou menos recente.
O negro aparece de forma secundária, quando se trata da abolição da escravatura, por exemplo, e geralmente é omitido como sujeito atuante na trajetória do Brasil.
Isso retrata a visão eurocentrista que influenciou a educação, excluindo a história africana, a luta e a participação da população negra na construção do país, o que só reforça preconceitos.







Atividades de trabalho onde o negro é omitido.
Livro de "literatura infantil e matérias escolares", destinado ao curso primário. (2)

A consagrada cartilha Caminho Suave (3) demonstra que nas edições mais recentes uma criança negra foi incluída na ilustração da capa.














Edição de 1985 Edição de 1962
O livro didático é uma fonte de pesquisa que traduz vários aspectos da história e da cultura. Pela diversidade do ACERVO HISTÓRICO DO LIVRO ESCOLAR sem dúvida a temática da população negra nos livros didáticos tem, nesse acervo, inúmeras possibilidades de pesquisa.
Alguns trabalhos acadêmicos nos mostram como esse assunto tem sido bem explorado. (4)


(1) METTIG, O. e MAGALHÃES, M. L. Infância Brasileira. Salvador, Ed. do Brasil, 1962.
(2) SANTOS, T. M. Brasil minha pátria. SP, Agir, 1963.
(3) LIMA, Branca Alves. Caminho Suave. Leitura intermediária. SP, Ed. Branca A. de Lima, 1962.
LIMA, Branca Alves. Caminho Suave. Renovada e ampliada. SP, Edipro, 1985.
(4) Entre outros: OLIVEIRA, Marco Antônio de. O negro no ensino de história: temas e representações. Dissertação (Mestrado em Educação) Universidade de São Paulo, 2000.
CRUZ, Mariléia dos S. A história da disciplina Estudos Sociais a partir de representações sobre o negro no livro didático (período 1981-2000). Dissertação (Mestrado em Educação), Universidade Estadual Paulista, 2000.
SILVA, Ana Célia da. O estereótipo e o preconceito em relação ao negro no livro de Comunicação e Expressão de primeiro Grau, nível I. Dissertação (Mestrado em Educação) Universidade Federal da Bahia, 1988.
__________________.
Da mesma autora: As transformações da representação social do negro no livro didático e seus determinantes. Tese (Doutorado em Educação) Universidade Federal da Bahia, 2001.
RAYNETTE , Castello Branco. O negro no livro didático de História do Brasil para o ensino fundamental II da Rede Pública estadual de ensino, no Recife. Mestrado, Universidade Federal de Pernambuco, 2005.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

SÉRIE “PEDRINHO”




Lourenço Filho (1897-1970) foi educador, autor de livros didáticos e organizador de várias coletâneas escolares.

A série de leitura graduada “Pedrinho”, de sua autoria, é composta de textos para serem usados nos primeiros anos escolares e foi publicada em 1955, com inúmeras edições.

Organizada para as escolas primárias, contém uma Cartilha, quatro livros para as séries do curso primário e um quinto para o aperfeiçoamento da leitura.

PEDRINHO é o nome do personagem do ‘Sítio do Pica Pau Amarelo’ de Monteiro Lobato. Será coincidência?
O ACERVO HISTÓRICO DO LIVRO ESCOLAR - AHLE disponibiliza para pesquisa vários títulos de Lourenço Filho, incluindo sua produção voltada para a formação de professores.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Fábulas e Educação



No universo da literatura infantil, a fábula é considerada um gênero literário didático e foi muito usada nas escolas como instrumento educativo, principalmente nas primeiras décadas do século XX.
Na definição do Dicionário Houaiss, fábula é narração popular de fatos imaginados; curta narrativa em prosa ou verso que ilustra um preceito moral; história fantasiosa. Fabular é sinônimo de fantasiar e fabuloso significa o que ultrapassa a imaginação: que sendo real, parece imaginário, incrível. Geralmente as fábulas usam animais como protagonistas.
O ACERVO HISTÓRICO DO LIVRO ESCOLAR – AHLE mantém livros escolares e paradidáticos (livros usados como apoio: os livros de leitura e as antologias literárias, por ex.) que contém fábulas como recurso didático.
Destaco Poesias Infantis[1] de Olavo Bilac (1865-1918) poeta parnasiano que produziu inúmeros livros escolares. Com 1ª edição em 1904, (até 1961, foram publicadas 27 edições), esse livro traz poemas adaptados de fábulas famosas, como a Cigarra e a Formiga. Na capa, a menção para o seu uso: “Livro approvado, adoptado e premiado pelo Conselho Superior de Instrução Pública do Distrito Federal”.
Outro livro é Fábulas imitadas de Esopo e de La Fontaine adotadas para leitura escolar.[2]
Como esse gênero de literatura era usado nas práticas educativas? Bem, ilustro com um exercício contido no livro Novo Manual de Língua Portugueza para uso nas escolas secundárias[3]. Na página 271, no subtítulo Leitura e Recitação há a fábula A Cigarra e a Formiga e logo abaixo um exercício chamado Estudo Analítico, com as seguintes questões:

a) A qual bichinho dais vossa simpatia e porque?
b) Como chamais o defeito da cigarra?
c) E o da formiga?
d) Que exemplo tiramos dessa fábula?

Em uma pesquisa no ACERVO HISTÓRICO DO LIVRO ESCOLAR encontramos inúmeras fábulas, principalmente em livros de leitura, o que demonstra o largo uso desse gênero literário nas escolas.
A literatura infantil, entre outras funções, fornece exemplos, modelos de comportamento, valores morais a serem seguidos etc., muitas vezes sem questionamento, nem contexto.
Por que a fábula foi e ainda é usada como recurso didático? Eis algumas especificidades da fábula, que facilitam o seu uso para crianças:

* São textos curtos, concisos; não cansam e rapidamente concluem uma história. Por serem curtas, as fábulas são facilmente memorizadas e se prestam a exercícios de reescrita.
* Antes mesmo dos 6 anos, quando inicia-se a aquisição da técnica da leitura, a fábula estimula a imaginação infantil, a criatividade etc.
* Ausência de indicações precisas de tempo e espaço. “Um regato, uma floresta, muito longe daqui, há muito tempo atrás...”
* Trazem, na maioria das vezes, animais como personagens, o que seduz a criança;
* Traduzem certos comportamentos e com isso demonstram uma simbologia que é universal.
As fábulas apresentam um universo simbólico de sentimentos que permeia a sociedade. Contém valores e situações comuns a todos.
Com isso, ao mesmo tempo que desperta o interesse pela leitura, com textos não cansativos, a fábula transmite valores e comportamentos. Mas quais?
Em uma leitura mais demorada, por exemplo, o que vemos?
Virtudes como bondade, solidariedade, compreensão, paciência, ao lado de certa esperteza, astúcia, vingança, maldade etc.
Muitas chegam à violência: a tartaruga que fala muito, cai e se despedaça; a formiga deixa a cigarra morrer de fome; o lobo esquarteja e come o cordeiro; a raposa que fica sem os olhos etc.
A moral das fábulas adquiriu vida própria e se transformou em provérbios: frases prontas, vindas do conhecimento popular, transmitidas oralmente e que encerram certo ensinamento sob algum aspecto da vida e na maioria das vezes, conservam um quadro de valores. Quem já não ouviu “Devagar e sempre se vai ao longe”, menção à fábula A lebre e a tartaruga de Esopo?
Bem a possibilidade de usar o fantástico, sem dúvida é um atrativo para crianças e jovens. Então, como usar hoje o gênero fabular? Quais valores nós queremos transmitir?
Histórias que não reafirmem preconceitos; que traduzam a diversidade, a convivência com o diferente, a solidariedade; a afetividade; a relação mais adequada com a natureza e principalmente e aí, diferentemente das fábulas tradicionais, que nada está dado como se sempre fosse assim e que podemos alavancar mudanças.









[1] BILAC, Olavo. São Paulo, Francisco Alves, 1924.
[2] ROCHA, J. J. São Paulo, Livraria Francisco Alves, 1913.
[3] Por uma reunião de professores. Livraria Francisco Alves, 1916.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

LIVROS ESCOLARES DURANTE O “ESTADO NOVO”



Por conter livros desde o século XIX até o fim da década de 1970 (80 anos consecutivos) o ACERVO HISTÓRICO DO LIVRO ESCOLAR - AHLE tem um material representativo de vários períodos da história do país.
Destaco, neste texto, alguns aspectos da formação escolar durante o “Estado Novo” (1937-1945), cuja meta foi a difusão do nacionalismo, do patriotismo e dos princípios do projeto político-ideológico da ditadura instaurada. Esse período valeu-se da censura e do controle dos meios de comunicação através do DIP – Departamento de Imprensa e Propaganda. A máquina do Estado enaltecia a figura de Getúlio Vargas mediante a disseminação de cartazes e fotos e os livros escolares apregoavam o trabalho e o patriotismo como valores absolutos. O ensino primário deveria ter como função despertar aptidões físicas, morais e intelectuais, visando à formação do cidadão e do trabalhador. (LENHARO, 1986, p.168).
Dentre outros livros escolares do período o AHLE mantém uma coleção para crianças, de 1940, denominada “Biblioteca Patria”, conjunto de livros em quadrinhos titulados “Grandes Figuras do Brasil” (Murilo, Rafael et alli. 1940). Essa coleção traz uma apresentação, em forma de ofício, assinada por Getúlio Vargas, reiterando o empenho do governo em propagar exemplos de patriotismo por meio dos “vultos nacionais”.
A juventude foi o alvo central da difusão da ideologia oficial, através da “Juventude Brasileira”, organização de caráter educativo criada em 1940 e vinculada ao Ministério da Educação. Voltada para crianças dos 7 aos 11 anos e jovens dos 12 aos 18 anos, essa organização previa a instalação de centros cívicos em todas as cidades e também no interior das escolas oficiais. [1]
A forte censura e o direcionamento do Estado em propagar a ideologia oficial atingiu, sem dúvida, todas a instâncias da sociedade e em relação a educação escolar se expressa, por exemplo, no capítulo III, artigo 12 do Decreto-Lei 1006 de 30 dezembro de 1938, abaixo transcrito:

A autorização para uso do livro didático será requerida pelo interessado, autor ou editor, importador ou vendedor em petição dirigida ao Ministro da Educação, o qual se juntarão 3 exemplares da obra, impressos ou datilografados, acompanhados, nesta última hipótese, de uma via dos desenhos, mapas e esquemas, que a mesma forem parte integrante. (Nóbrega, 1952, p. 598).

O ACERVO HISTORICO DO LIVRO ESCOLAR tem inúmeros livros didáticos, para-didáticos e de referência das décadas de 1930 e 1940 que traduzem o projeto pedagógico do período e as práticas culturais e de escolarização.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


LENHARO, Alcir. Sacralização da Política. Campinas, Papirus, 1986.

NOBREGA, Vanbdrick L. Enciclopédia da legislação do Ensino. RJ, V. 2. 1952.


[1] Sobre a “Juventude Brasileira”, verificar HORTA, José Silvério B. (1994). O Hino, o sermão e a ordem do dia. A educação no Brasil (1930-1945). RJ, UFRJ, 1994, principalmente páginas 203 a 287.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

LIVROS ESCOLARES DE LÍNGUA ESTRANGEIRA

Lanteuil, H. SP, Fco. Alves, 1958


Na História da Educação do país a Reforma Francisco Campos[1], de 1931, é considerada aquela que, pela primeira vez, deu organicidade aos cursos secundários. Como herança ainda do século XIX e da descentralização da educação na República, os graus de ensino primário ou elementar e os cursos de formação de professores no nível médio eram de responsabilidade dos Estados, antigas províncias do Império. Já os cursos médios ou secundários e os de nível superior eram da alçada federal. Portanto, a Reforma acima citada teve repercussão em todo o país, ao atender a demanda cada vez mais crescente pelo ensino secundário, porta de entrada para os cursos superiores.
O ensino da língua estrangeira aparece nesses cursos secundários. A Reforma Francisco Campos incluiu o francês, o inglês, o latim e o alemão (facultativo) nas diversas séries que compunham esse grau de ensino.
Nos anos de 1940 as Leis Orgânicas de Ensino, conhecidas como Reforma Capanema
[2], para o ensino secundário instituíram um primeiro ciclo com quatro anos de duração (ginásio) e um segundo ciclo de três anos (clássico e científico).
Quanto ao ensino de línguas, no curso ginasial foi obrigatório o ensino do latim, do francês e do inglês.
Para o curso Clássico houve a inclusão do ensino da língua grega, como opcional.
Nos cursos Científicos houve a inclusão da língua francesa, do inglês e 1 ano de espanhol (não tinha latim).
A reforma de ensino do governo militar, nos anos de 1970, Lei n.5692, suprimiu o latim e o francês como matérias obrigatórias.
[3]
O ACERVO HISTÓRICO DO LIVRO ESCOLAR – AHLE possui duas centenas de livros escolares de língua estrangeira. Destacamos livros de latim, o mais antigo de 1944; de língua francesa, desde 1910; de inglês, desde 1932; de espanhol, desde 1941 e um livro de língua grega de 1952. O AHLE resguarda também livros de referência, como dicionários e Atlas.

[1] Francisco Campos foi Ministro da Educação e Saúde entre 1930 e 1934.

[2] Gustavo Capanema foi Ministro da Educação no período de 1934 a 1945.


[3] Sobre as reformas de ensino mencionadas, verificar ROMANELLI, Otaiza. História da Educação no Brasil. RJ, Vozes, 1978; RIBEIRO, Maria Luisa Santos. História da Educação Brasileira – a organização escolar. Campinas, Autores Associados, 1978 e
GHIRALDELLI, Paulo. História da Educação. São Paulo, Cortez, 1995.




segunda-feira, 6 de julho de 2009

LIVROS ESCOLARES SOBRE CIVISMO

O ACERVO HISTÓRICO DO LIVRO ESCOLAR – AHLE abrange todas as matérias de ensino. É um acervo representativo, em seu conjunto, da produção didática desde a última década do século XIX até os anos de 1970, proporcionando, assim, a recuperação de modos de comunicação, de linguagem, como também dos conteúdos expressos nas diversas disciplinas de ensino.
Se fizermos um recorte desse acervo sobre civismo, por exemplo, conseguiremos resgatar as diversas abordagens dessa matéria, que mudaram de acordo com o contexto em que foram produzidas e, conseqüentemente, com os objetivos que pretendiam alcançar.
Livros como “Educação Cívica” de 1895 de Tancredo Amaral[1] ou a “Pátria Brazileira”, de Olavo Bilac, com 1ª edição em 1911[2], traduzem a relação entre civismo e identidade nacional, no momento de construção de uma nova nação, com o advento da República.
A “Coleção Pátria” de 1940[3], história em quadrinhos para crianças apresentando personagens do país, abarca o período do Estado Novo (1937-1945) ditadura na qual a escola, principalmente a secundária e a produção didática sofreram um forte controle do Estado.
Ainda entre outros livros, destacamos o “Calendário Cívico” de 1970, de Amaral Fontoura, livro integrante da disciplina Educação Moral e Cívica[4], matéria de ensino que compôs as mudanças na legislação educacional impostas pela Ditadura Militar (1964-1984), com o objetivo de veicular, junto aos estudantes, valores de um Estado autoritário e repressor. Vê-se, portanto, pelos exemplos citados, que a escola foi um espaço privilegiado no que concerne a veiculação de valores e idéias.
O ACERVO HISTÓRICO DO LIVRO ESCOLAR possui inúmeros livros sobre civismo e o apresentado é só uma amostra da vocação desse Acervo quanto à pesquisa na vasta área da historiografia educacional.


[1] AMARAL, Tancredo. “Educação Cívica” – A história de S. Paulo ensinada pela biographia dos seus vultos mais notáveis. (obra destinada aos estabelecimentos de instrução popular). RJ, Alves e Cia. Editores, 1895.

[2] BILAC, Olavo e NETTO, Coelho. “A Pátria Brazileira” (para os alunnos das escolas primárias), RJ, Fco. Alves, 1926. A primeira edição é de 1911.

[3] MURILO, Rafael e outros. “Grandes Figuras do Brasil”. Coleção Pátria. RJ, Gde Consórcio Suplementos Nacionais Ltda. V. 2, 1940.

[4] O ACERVO HISTÓRICO DO LIVRO ESCOLAR possui uma centena de livros de Educação Moral e Cívica, entre outros títulos sobre o tema.´

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Uma viagem ao mundo da higiene



Higienismo, termo que designa os cuidados com a higiene ou a formação de hábitos sadios, foi uma preocupação dos poderes públicos nas primeiras décadas do século XX.
O processo de urbanização que concentrou a população implicou no desafio em melhorar as condições do meio para a eliminação de doenças e epidemias, tais como tuberculose, malária, varíola etc. Desse modo, o habitante da cidade precisava adquirir novos hábitos em relação à habitação, a alimentação, ao saneamento e a higiene.
A criação do Instituto de Higiene,[1] em 1918, em São Paulo, foi um exemplo da necessidade de instrumentos para se enfrentar e melhorar as condições sanitárias da cidade.
Dentre os recursos utilizados para a disseminação de novos hábitos à população, sem dúvida a escola foi uma das instâncias para informar e educar as crianças sobre saúde e higiene.
Assim, vários livros didáticos ou de uso escolar foram editados abordando esses ensinamentos. O ACERVO HISTÓRICO DO LIVRO ESCOLAR mantém alguns títulos que tratam dessa questão desde os anos de 1930 até 1970, claro que demonstrando mudanças na abordagem do tema Afinal o livro didático deve ser analisado como parte de um contexto mais amplo e nesse sentido, é um material que pode traduzir aspectos culturais e sócio-econômicos de um período.
Destacamos um desses livros em especial, não só pela temática, mas também pela autoria. Trata-se de “Aventuras no mundo da Higiene” de Érico Veríssimo.
O livro, da editora Globo de Porto Alegre, foi editado em 1939 e traz, de forma lúdica e com inúmeras ilustrações de João Fahrion, uma viagem, nas palavras do autor, sobre as noções de higiene.
Utilizando como recurso o encontro de duas crianças, uma magra e pálida e outra robusta e a figura do dr. Salus, o autor trata de lições de higiene, de alimentação e de bons hábitos em geral.
Esse e outros livros sobre o tema estão a disposição de interessados e pesquisadores. (2)




[1] Sobre o Instituto de Higiene ver ROCHA, Heloisa Helena. “Higienização dos Costumes: educação escolar e saúde no Projeto do Instituto de Hygiene de São Paulo (1918-1925)”, Campinas, Mercado de Letras, 2006.
(2) A Coleção "Bibliotheca Popular de Hygiene", por exemplo, de autoria do Dr. Sebastião M. Barroso, publicada nos anos de 1930.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Livros de formação de professores: as antigas Escolas Normais






A Biblioteca Monteiro Lobato foi criada em 1936, como equipamento voltado à criança. Sua primeira diretora, Lenyra Fraccaroli, à frente da Biblioteca até 1964, foi normalista da Escola Caetano de Campos, antiga Escola Normal de São Paulo.
Tanto a localização da Biblioteca, próxima a Escola Caetano de Campos[1], quanto a formação de Lenyra foram fatores para a aquisição de um considerável acervo de livros que serviram aos estudantes das Escolas Normais.
Assim, nos registros sobre a história da Biblioteca encontram-se depoimentos sobre a presença de normalistas, que procuravam mapas e gravuras para as suas aulas e também livros para os seus estudos.
Com isso, o Acervo Histórico do Livro Escolar – AHLE, constituído pelos livros resguardados das antigas bibliotecas da cidade de São Paulo, dispõe de mais de 200 títulos destinados aos alunos das antigas Escolas Normais.
Autores, tais como, Cleofanes Lopes de Oliveira, Silveira Bueno e Lourenço Filho, professores da Escola Caetano de Campos, estão representados no acervo.
Por exemplo, o livro "Testes ABC" de Lourenço Filho,[2] ainda com o material dos testes intacto ou "Introdução ao estudo da Escola Nova",[3] do mesmo autor; os manuais pedagógicos, que serviam para a orientação da prática do magistério, como o "Manual do Professor Primário",[4] de Theobaldo Miranda dos Santos, entre outros, fazem parte do AHLE.
Na década de 1930 foram editadas inúmeras publicações voltadas para a formação dos professores, pois nesse período o movimento da Escola Nova, no qual educadores se empenharam em traçar novos rumos à Educação em contraposição ao chamado tradicionalismo pedagógico, tomou corpo no país. A expansão da educação também motivou que os poderes públicos se empenhassem em aprimorar a formação e consolidar a carreira dos profissionais de ensino.
Nesse sentido, livros de órgãos oficiais como "Leitura e Linguagem no Curso primário", do Ministério da Educação, [5] com sugestões para a organização e o desenvolvimento de programas de ensino, retratam as propostas e os conteúdos escolares presentes nas várias reformulações pelas quais passou a Educação.
Outro livro, "Organização dos Museus Escolares",[6] por exemplo, traz as diretrizes do Código de Educação de São Paulo, de 1933, instituído por Fernando de Azevedo, então Diretor da Instrução Pública do Estado, que previa a formação de museus nas escolas.
Destacamos, ainda, o "Manual de Califasia e Arte de Dizer" de Silveira Bueno[7]. Na apresentação o autor, professor de português e de califasia da Escola Caetano de Campos, traz a distinção entre califasia e a arte de dizer. Califasia como o bem pronunciar vocábulos com a máxima perfeição mecânica possível, o articular das consoantes etc. Bueno foi jornalista, poeta e professor e seu livro é precursor dos cursos de oratória ou de como falar em público, pois contempla o gestual, a posição do corpo, a respiração, a fisionomia etc.
Bem, esta foi uma amostra dos livros do AHLE sobre a formação de professores. Espero ter ativado a curiosidade dos que trabalham ou pesquisam sobre Educação. Outras informações acerca do tema serão postadas oportunamente.



[1] A Escola Caetano de Campos, anteriormente Escola Normal de São Paulo, é conhecida também como Escola Normal da Praça. Sua origem é de 1846 e foi a primeira escola para a formação de professores de São Paulo. Reabriu, definitivamente em 1880. Para mais informações, verificar principalmente MONARCHA, Carlos. “ Escola Normal da Praça: o lado noturno das luzes”. Campinas, UNICAMP, 1999.

[2] FILHO, Lourenço. “Testes ABC – para verificação da maturidade necessárias à aprendizagem da leitura e da escrita”.São Paulo, Ed. Melhoramentos, 3ª. Edição revista, 1947. (1ª. Edição em 1933).

[3] LOURENÇO FILHO, Manoel Bergstron. “Introdução ao estudo da Escola Nova”. São Paulo, Melhoramentos, 1967. Consultar SAVIANI, D. “História das Idéias Pedagógicas” Campinas, Autores Associados, 2007, que traz informações sobre essa publicação.

[4] SANTOS, Theobaldo Miranda. “Manual do professor Primário”. São Paulo, Cia Ed. nacional, 3ª. Ed., 1954.

[5] MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E SAÚDE. “Leitura e Linguagem no Curso Primário”. Rio de Janeiro, Publicação do Instituto nacional de Estudos pedagógicos – INEP, 2ª. Tiragem revista, 1951.

[6] BUSH, Leontina Silva. “Organização de Museus Escolares”. São Paulo, Ed. Brasileira, 1937.

[7] BUENO, Silveira. “Manual de Califasia e arte de dizer”. São Paulo, Livraria Academica, 1939. Primeira edição, 1930.

terça-feira, 10 de março de 2009

Colégio Abilio

O livro "O Ateneu", publicado em 1888 por Raul Pompéia (1863-1895), trata de um internato de meninos no Rio de Janeiro do século XIX. É literatura pedida em vestibular e muito usada nos cursos de Educação, por reproduzir as relações conflituosas e autoritárias dentro de uma escola.
Assim, a escola  é metáfora para retratar a sociedade brasileira do fim do século XIX. “Vais encontrar o mundo”, referência na obra de Pompéia sobre a escola.
O livro tem um quê memorialístico, pois Raul Pompéia estudou no Colégio Abílio da Corte, no Rio de Janeiro, escola de propriedade e dirigida por Abílio César Borges (1858-1891) médico e educador baiano conhecido como Barão de Macaúbas[1] (município da Bahia).
O Colégio Abílio e o seu diretor estão representados no relato de Pompéia.
"O Ateneu" é considerado uma das obras mais importantes do realismo e da literatura brasileira do século XIX.
O ACERVO HISTÓRICO DO LIVRO ESCOLAR tem um livro sobre Castro Alves[2] e nele, uma fotografia antiga do Colégio Abílio, frequentado também pelo poeta.
O prédio ainda existe no bairro de Laranjeiras, onde funciona o Instituto João Alves Afonso, atual creche da Santa Casa de Misericórdia.
Fonte: "História de Castro Alves", 1947

[1] Sobre as escolas do Barão de Macaúbas verificar, entre outros, VALDEZ, Diane. "Mens Sana in Corpore Sano. Os Colégios do Dr. Abílio César Borges". In: www.histedbr.fae.unicamp.br/navegando

[2] MACHADO FILHO, Aires da Mata. "História de Castro Alves". Belo Horizonte, Edição de “ROCHA”, 1947.

Livros escolares de Duque Estrada



Joaquim Osório Duque Estrada (1870-1927), foi poeta e jornalista e é conhecido como o letrista do Hino Nacional brasileiro. A música foi composta em 1822, por Francisco Manuel da Silva, como Hino da Independência e aproveitada após um concurso vencido por Duque Estrada em 1909, para a escolha da melhor letra do Hino Nacional. Com isso, neste ano de 2009, a letra faz cem anos. Por conta dessa efeméride, os descendentes do autor estão organizando uma exposição e a publicação de um livro, que sem dúvida, serão divulgados pela imprensa. O que poucos sabem é que Duque Estrada foi também educador. Professor da Escola Normal, professor de História do Colégio Pedro II e autor de livros escolares. O ACERVO HISTÓRICO DO LIVRO ESCOLAR possui dois livros do autor: “Histórias Maravilhosas”, Rio de Janeiro, Livraria Fco Alves, 1946, 4ª. Ed., com contos adaptados para as crianças em dois volumes e “Noções de História do Brasil - para as escolas primárias do Distrito Federal”, Livraria Fco. Alves, 1924, 5ª. Ed.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Livro escolar: o sentido do efêmero


Walter Benjamin[1] em seu relato sobre um colecionador alemão de livros infantis atenta para o fato de terem sido salvos da máquina de triturar papel. Este comentário nos remete ao livro escolar, material pouco conservado, considerado de uso momentâneo e com isso, objeto de consumo descartável, prestes a desaparecer.
Sem dúvida, o livro didático compõe a própria história do livro, mas é desvalorizado enquanto produção cultural, talvez pelo sentido do efêmero que o acompanha, porque se desatualiza, se desgasta e é facilmente substituível. Poucas foram as instituições que preservaram o livro escolar.
Assim, qual o propósito de resguardarmos livros escolares antigos? Em um primeiro momento surge a idéia de memória, de recuperação de tempos e práticas antigas, da reconstituição dos bancos escolares, das primeiras professoras e por aí vai.
Chama a atenção o interesse e a curiosidade, muitas vezes afetiva, que esses livros despertam na lembrança das pessoas. Testemunhamos frequentadores da Biblioteca Monteiro Lobato que nos pedem que mostremos livros de sua infância escolar ou pais desejosos de apresentarem aos filhos os livros em que foram alfabetizados. Em tempos de mudanças rápidas, a impressão de rupturas e não de um passado próximo e coletivo motiva a busca dessas representações, como memória, tão em voga atualmente.
Mas o objetivo principal do Acervo Histórico do Livro Escolar – AHLE, que não exclui sua vocação de despertar lembranças, é atender a necessidade de reunirmos fontes para a investigação científica, principalmente por se tratar, como apontamos acima, de um material que poucas instituições conservaram.
É importante ressaltar também que muitas vezes livros sem uso podem se transformar em um acervo de valor documental. Eric Hobsbawm[2], sobre as fontes de pesquisa para a história afirma que é o olhar investigativo ou as questões postas pelo pesquisador que transformam documentos em fontes de pesquisa. Em geral não existe material algum até que nossas perguntas o tenham revelado, afirma o autor.
Afirmação, sem dúvida, reveladora da origem do AHLE.


[1] Livros infantis velhos e esquecidos. In: Reflexões sobre a criança, o brinquedo e a educação. SP, Duas Cidades e Ed. 34, 2002.

[2] Sobre a História. São Paulo, Cia das Letras, 1998. P. 220.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

A origem do Acervo Histórico do Livro Escolar

As bibliotecas infantis na cidade de São Paulo datam da década de 1930. A primeira foi criada em 1936, com o nome de Biblioteca Infantil Municipal, atual Biblioteca Monteiro Lobato. Essa Biblioteca fez parte do projeto do Departamento de Cultura, na gestão de Mário de Andrade, então seu diretor.
Por ser a primeira biblioteca pública voltada para a criança e o jovem e ter um projeto de se tornar um centro de cultura em torno do livro e da leitura, sua atuação teve grande repercussão, tornando-se exemplo e embrião de uma rede de bibliotecas que se instauraria na cidade de São Paulo. Nos anos de 1940 foi criada uma segunda Biblioteca Infantil no bairro do Itaim e mais uma dezena nos anos de 1950.
Essas primeiras bibliotecas acumularam livros de todos os gêneros, principalmente de literatura infantil, mas também livros escolares que as crianças usavam para as suas pesquisas.
Com o tempo, esses livros foram sendo retirados das estantes por estarem desatualizados ou muito manuseados.
Essa é a origem do Acervo Histórico do Livro Escolar. Em uma pesquisa iniciada em 2006, nesses livros que estavam fora de uso mas ainda mantidos pelas bibliotecas, percebemos que havia um número significativo de livros escolares antigos que permitiam a organização de um acervo para pesquisadores.
E foi o que aconteceu. Formamos, então, o ACERVO HISTÓRICO DO LIVRO ESCOLAR, acervo especial da Seção de Bibliografia e Documentação da Biblioteca Monteiro Lobato. Essa Seção é voltada para pesquisadores, com quatro acervos especiais: o Acervo de Literatura Infantil, representativo de parte da produção nacional de literatura infantil; o Acervo Monteiro Lobato, com farta documentação sobre o autor; o Acervo Memória da Biblioteca, com material que recupera a história da Biblioteca Monteiro Lobato e do Departamento de Cultura e mais recentemente, o Acervo Histórico do Livro Escolar.
Esses acervos são procurados pelo público em geral, por pesquisadores, estudantes e professores de várias áreas do conhecimento.