Acervo Histórico do Livro Escolar - AHLE

O ACERVO HISTÓRICO DO LIVRO ESCOLAR é formado pelo conjunto de livros escolares das antigas bibliotecas públicas infantis da cidade de São Paulo.

Com 5 mil volumes, o Acervo é composto por cartilhas, manuais escolares de todas as matérias de ensino, antologias literárias e livros de referência de uso escolar, entre outros, do século XIX até a década de 1980 e abrange os cursos primários, os secundários, os de formação de professor e o ensino técnico.
O Acervo está localizado na Biblioteca Infantojuvenil Monteiro Lobato, equipamento da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.

Neste blog serão publicadas informações sobre esse acervo.


Seja bem-vindo.







quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Sergio Buarque de Hollanda e os livros didáticos de história



São vários os autores que se dedicaram à ficção, a ensaios ou a publicação de livros de teoria e de análise sobre a história e a realidade brasileira e também se dedicaram, em algum momento, a escrever livros didáticos ou de uso escolar para crianças e jovens.

Destaco nesta postagem um desses nomes: Sergio Buarque do Holanda (1902-1982), autor, entre outros livros, de Raízes do Brasil (1936),[1]considerado um dos importantes títulos da moderna historiografia brasileira.
Sobre livros didáticos Sergio Buarque dirigiu pela Cia Editora Nacional, nos anos de 1970, a Coleção Sergio Buarque de Hollanda, com outros autores, como Carla de Queiroz, Sylvia Barboza Ferraz e Virgílio Noya Pinto e assessoria didática complementar de Laima Mesgravis.

Editada entre 1971 e 1989 e composta por livros para as séries ginasiais ou 5ª a 8ª série do 1º grau (de acordo com as mudanças nos nomes  dos cursos), essa coleção foi considerada inovadora como livro escolar de história, tanto em relação à didática e apresentação dos conteúdos, quanto as ilustrações e a diagramação.[2] 

O AHLE mantém: “Das origens à Independência”, de 1971 e “Da Independência aos nossos dias” de 1972 e 1977; “História da Civilização” para as 7ªs e 8ªs séries do 1º grau, de 1975, todos pela Cia Ed. Nacional.

Sobre as denominações dos cursos, conforme as diferentes leis do ensino, esclareço a seguir: os cursos ginasiais, com duração de quatro anos eram voltados para alunos entre 10 e 14 anos. Esse curso foi substituído, segundo a Lei n. 5692/71 pelo 1º grau (5ª, 6ª, 7ª e 8ª series) e atualmente corresponde ao 2º ciclo do Ensino Fundamental.

O AHLE resguarda centenas de livros de história muito procurados por pesquisadores. Um dos mais antigos é Resumo da História do Brazil, de José E. C. de Sá e Benevides, editado pela Francisco Alves, 1915, 10. edição.


Notas:



[1] Uma edição comemorativa dos 70 anos desta publicação, em 2006, foi organizada por Ricardo Benzaquen de Araújo e Lilia Moritz Achwarcz. Publicado pela Cia das Letras, reuniu prefácios e introduções ao livro, além de novas contribuições escritas especialmente para a edição.

[2] Verificar: MÁSCULO, Jo´se Cássio. A coleção Sérgio Buarque de Hollanda: livros didáticos e ensino de história. Tese (doutorado), PUCSP, 2008.




segunda-feira, 28 de novembro de 2016

PRÁTICAS DE LEITURA DE TEXTOS LITERÁRIOS NO LIVRO DIDÁTICO



Faço aqui algumas especulações sobre a escola como um dos espaços de formação de leitores. Afinal, ler é um hábito que se forma e é na família, que na maioria das vezes, isso acontece pela aproximação com livros, revistas, gibis, jornais e com adultos que lêem para si e para a criança. Claro que atualmente o texto escrito está também em computadores, celulares, e-books etc. e tal, mas isso não anula a formação do hábito da leitura.

Essa iniciação, que nem todos têm junto à família, envolve ainda mais  o papel da escola na formação da criança leitora e com isso, a utilização do livro didático como uma dos instrumentos para essa   formação.

Desde os livros de primeiras leituras com textos literários infantis,  até as antologias literárias, o livro didático foi e ainda é um material indispensável para abordar textos de literatura e aproximar alunos e alunas com autores mais consagrados, clássicos, contemporâneos e populares. (1)
(1944)

Algumas ideias podem contribuir para essa prática. Por exemplo, conhecer uma biblioteca, mas demoradamente, deixando a criança se aproximar dos livros; incentivar a ‘contação’ de histórias; propor a “hora da leitura”; proporcionar encontros com autores; respeitar  a iniciativa do estudante; transitar por vários gêneros desde a poesia, a crônica, o conto, o romance ou textos opinativos e principalmente,  não impor textos sem conexão com alguma questão de contexto. Mesmo autores de séculos passados têm vínculo com temas que são universais e atemporais. Esse é um dos mais importantes predicados das artes em geral e da literatura em particular.
(1962)

Alguns entraves que podem dificultar a prática da leitura literária na escola: a opinião sedimentada de que o aluno ou aluna não gostam de ler ou mais, “as novas gerações não lêem”; falta de material ou de um ambiente propício; bibliotecas pouco convidativas e também o fato de que nem sempre o professor é um leitor.

Bem toda essa especulação sobre leitura literária e livro didático teve o propósito de trazer alguns livros de leitura na escola de tempos atrás, livros que o ACERVO HISTORICO DO LIVRO ESCOLAR – AHLE mantém em seu acervo.
Afinal não é com a história que apreendemos melhor os tempos atuais? Ou que ao menos nos provoca uma atitude reflexiva e a compreensão da construção de práticas pedagógicas? Ora, estudos comparativos, de métodos, contrastes entre textos e períodos históricos são perspectivas de pesquisa que estimulam novas abordagens. E muitas vezes, não tão novas assim.


Notas:


(1) Uma dissertação de mestrado que aborda essas questões e traz uma bibliografia significativa: Feitosa, Márcia Soares Araujo. Prática docente e leitura de textos literários no Fundamental II: uma incursão pelo programa Hora da Leitura. Mestrado, Faculdade de Educação da USP, 2008. Acessado em 28/11 http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

NOVO MANUAL DE LINGUA PORTUGUEZA (1916)




 Novo Manual de Lingua Portugueza (grafia reproduzida na forma literal do livro) é um desses títulos que chama a atenção pela autoria: “por uma reunião de professores”, pela indicação do método: “grammatica pouca, exercícios muitos” e claro, pela antiguidade.
Esse exemplar é de 1916, como "nova" edição, o que nos permite avaliá-lo como mais antigo ainda. Seu conteúdo trata da gramática, da lexicologia, da analyse (gramatical) e da composição, segundo explicações da capa.
Editado pela Livraria Francisco Alves & Cia., editora também de livros didáticos, pertence à coleção F. T. D. Essa sigla é em homenagem à Frere Theophane Durand, do Instituto Marista, ordem religiosa de origem francesa. 
A FTD tornou-se uma editora no Brasil, ainda atuante. O livro em questão faz parte dessa coleção didática que os Irmãos Maristas produziram na época, além de obras para o ensino religioso e é voltado para os cursos secundários.
A respeito dos cursos secundários, "no período da Primeira República (1889-1930), para o ensino secundário, a União tinha como responsabilidade manter o Colégio Pedro II, e os Estados, apenas um ginásio-modelo nas suas capitais. Esses ginásios se submetiam às diretrizes curriculares daquele. Boa parte das escolas secundárias, então, eram mantidas pela iniciativa privada." (1) 
Uma das lições do livro
Sobre esse Novo Manual..., sua divisão, a didática usada  e a apresentação de conteúdos fazem dele um  exemplar de pesquisa sobre o ensino da Língua e também sobre a sua história. O fato de ser produzido por professores é um indicativo precioso de como era ou ao menos de pensava, em sala de aula, a instrução da língua para o curso secundário na época.
Tanto como exemplar de recuperação histórica, quanto de análise comparativa, este livro pertence àqueles que são raros e merecem ser conhecidos pelas informações que traz.
Outros livros de Gramática ou de Língua Portuguesa são resguardados pelo AHLE, como  também livros escolares para o ensino secundário. O histórico desse grau de ensino é sintomático como parâmetro para avaliarmos o interesse despertado por esses cursos nos dias atuais.

Notas:

(1) Verificar: LOPES Silvana Fernandes. A Educação Escolar na Primeira república: a perspectiva de Lima Barreto. Acesso: http://www.histedbr.fe.unicamp.br/






segunda-feira, 31 de outubro de 2016

ARNALDO DE OLIVEIRA BARRETO

São vários os autores de livros escolares em um acervo com cinco mil títulos. Mas alguns se destacam pela quantidade de livros que escreveram, pela especialidade das matérias de ensino que se dedicaram, pela curiosidade sobre a abordagem de determinados temas, pela antiguidade ou  pela formação que tiveram, entre outros fatores.
Arnaldo de Oliveira Barreto (1869-1925) é um desses autores. Inspetor da seção masculina da Escola Caetano de Campos,(1) Barreto escreveu muitos livros escolares e de leitura para crianças.
Foi um dos organizadores da coleção Biblioteca Infantil, da Editora Melhoramentos, no inicio do século XX.  Eram livros que estimulavam a leitura com pequenas histórias já consagradas do universo infantil (neste blog já escrevi sobre essa série).
O ACERVO HISTÓRICO DO LIVRO ESCOLAR – AHLE mantém vários livros deste autor, além dos publicados pela coleção citada. Enumero alguns a seguir:
A pobre abelhinha- leituras extra escolares para meninos de mais de 12 anos. Typ. Siqueira, 1926, provavelmente sobre sua experiência no Caetano de Campos.
Corações de criança. Leituras preparatórias.  Ed. Francisco Alves, 1918.
Cartilhas das mães. Ed. Fco Alves, 1960, 82ª edição. A primeira edição deste livro foi em 1895.
Organizou o livro de Mme. Leprince de Beaumont: O Bazar das creanças diálogos de uma sabia preceptora com suas discípulas, Ed. Garnier, Tomos I e II.
Expomos nas ilustrações outro livro com a organização de Barreto: Vários Estylos – selecta de trabalhos literários de autores modernos e contemporâneos para uso nas classes de gymnasios e Escolas Normaes. Ed. Melhoramentos, 1910 (?), 6ª ed. 
Este último é uma antologia que reúne pequenos textos de autores nacionais e estrangeiros. As ilustrações trazem Olavo Bilac e Vitor Hugo.
O AHLE mantém centenas de títulos de livros de uso escolar com textos literários voltados para os cursos elementares, secundários e de formação de professores.
Indico o site http://www.unicamp.br/iel/memoria/  para aqueles que se interessam pelo tema e também convido-os a pesquisar no nosso ACERVO.

Notas:
(1) Era usual a separação dos gêneros nas escolas. Sobre a Escola Caetano de Campos, verificar, entre outros trabalhos: MONARCHA, Carlos. A escola norma da praça - o lado noturno das luzes. Campinas, Ed. UNICAMP, 1999.


quarta-feira, 19 de outubro de 2016

SOBRE LIVROS ANTIGOS E RAROS



Sobre livros antigos que influenciaram de alguma maneira a atuação do professor em sala de aula, nem sempre se consegue fazer afirmações certeiras. Mas se considerarmos que o livro em questão fez parte do acervo de uma Biblioteca Infantil, que teve um projeto de educação e de cultura[1], fica mais fácil ao menos levantar algumas hipóteses sobre a influência do livro por educadores.
É o que acontece com As sortes de Physica Recreativa, dos professores mais célebres, antigos e modernos, livro que ensina mágica e desvenda magias com explicações e ilustrações. Completando ainda os dizeres da capa: meios maravilhosos, fáceis e baratos de rir e instruir-se.
De autoria de Gastón Robert,  tratasse de nova edição ilustrada com 50 figuras explicativas. O livro data de 1893 e foi editado pela B. L. Garnier, do Rio de Janeiro.
Segundo o prefácio o livro faz parte de uma trilogia que Decremps chamava verdadeiro breviário do Farcista de bom tom. Henri Decremps (1746-1826) foi um mágico francês que publicou A magia branca revelada, desvendando as técnicas usadas para iludir.
Bem, eis um livro raro do século XIX, como outros que pertencem ao ACERVO HISTORICO DO LIVRO ESCOLAR – AHLE. Este provavelmente não foi usado em sala de aula, mas compôs o acervo de uma biblioteca infantil que teve papel fundamental na educação das crianças desde a década de 1930. Não foi a toa que o livro freqüentou as prateleiras dessa Biblioteca.

Notas

[1] Trata-se da Biblioteca Infantil Municipal, criada em 1936, como parte de um projeto de cultura implementado na cidade de São Paulo pelo Departamento de Cultura, na época, dirigido por Mário de Andrade.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

LIVROS ESCOLARES DO SÉCULO XIX - Pequena Grammatica da Infância





São poucas as referências que temos sobre exemplares dos livros didáticos publicados do século XIX. Alguns trabalhos sobre a edição de livros escolares no período nos mostram o cenário dessas publicações. A profa. Circe Bittencourt tem textos sobre o tema[1]  e também a profa. Ana Maria de Oliveira[2].
O ACERVO HISTÓRICO DO LIVRO ESCOLAR - AHLE mantém alguns livros oitocentistas já mencionados neste blog, como Os Lusíadas para escolares, publicado por Abílio Cesar Borges, o Barão de Macaúbas.

Pequena Grammatica da Infância, de Joaquim Maria de Lacerda, editado pela H. Garnier, do Rio de Janeiro, é um desses exemplares resguardados pelo AHLE com poucas informações sobre a data de publicação e a circulação do livro. Na capa há indicação “para uso das escolas primárias” e trata-se de “nova edição”.

O autor nasceu no Rio de janeiro em 1838 e faleceu em 1886. Portanto o livro originalmente deve ser da década de 70 ou 80 do século XIX.  Publicações como Alfabeto português e Aritmética da Infância, entre outras, indicam a produção desse autor no gênero do livro didático.

No livro indicado não há prefácio nem introdução. Logo na primeira página Joaquim aborda a Etymologia, como primeira parte do livro, seguida pela Syntaxe, pela Prosódia e pela Orthographia, como quarta parte. Observo, neste blog, a ortografia original do livro. O exemplar tem 120 páginas e nenhuma ilustração.

Eis um exemplar para pesquisadores sobre a evolução da língua portuguesa, sobre a história da gramática e do ensino nas escolas primárias do período.




Notas:




[1] BITTENCOURT, Circe (2004). Apresentação – História, produção e memória do livro didático. In: Educação e Pesquisa. Revista da Faculdade de Educação da USP, v. 30.

 

[2]GALVÃO, Ana Maria Oliveira. A circulação do livro escolar no Brasil oitocentista. UFMG, disponível em  www.anped.org.br/sites/default/files/gt02


quinta-feira, 8 de setembro de 2016

SOBRE GRAMÁTICAS



 Quando falamos em livros de gramática pensamos logo naquelas regras todas que compõem a Língua Portuguesa. Pois é isso mesmo. Dentre os livros que o ACERVO HISTÓRICO DO LIVRO ESCOLAR - AHLE resguarda, datados desde o fim do século XIX até os anos 1970, centenas são de Língua Portuguesa em todas as suas especificidades e muitos de gramática, matéria já comentada em outra postagem deste Blog e que será retomada aqui.
Pois chamam à atenção nesses livros as várias denominações que acompanham a especificidade do título: Gramática metódica; expositiva; descritiva; normativa; simplificada; elementar; prática, além de “novíssima ou moderna”. E é sobre  esses diversos títulos de que tratarei.
O AHLE consegue demonstrar as mudanças ocorridas tanto na língua, quanto nos métodos de ensino, por ter livros escolares que abrangem um período de oitenta anos consecutivos. Mudanças essas próprias da dinâmica da língua e de sua história através do tempo, estudada pela Gramática Histórica, desde a sua origem, até as várias fases de sua evolução.
Vejamos então que Gramática descritiva ou expositiva tem a mesma definição, expõem o estado atual da língua.
Por outro lado, Napoleão Mendes de Almeida, consagrado autor de livros escolares de Língua Portuguesa, usou, desde os anos de 1950, o termo, “metódica” e explica: “o estudo da gramática é metódico, gradativo. Das noções elementares de linguagem vai o aluno ampliando aos poucos, vagarosa, mas completamente.”[i] Gramática Metódica de Língua Portuguesa é título de três exemplares do autor, no acervo, reeditados até os anos de 1970.
Francisco da Silveira Bueno e Lima Rocha, por sua vez usam o termo “normativa”. Gramática Normativa da Língua Portuguesa. Esse termo parece uma redundância, já que a gramática apresenta as normas, as regras que orientam a língua, mas na 1ª edição de 1944, Silveira explica que até então as gramáticas continham um excesso de análise lógica, o que afastava o aluno. E a sua gramática trazia explicações em notas, exemplos clássicos e modernos, citações etc., métodos mais afinados com o seu tempo.
Os termos, “simplificada ou elementar” apontam para o grau de ensino que a publicação está voltada, geralmente para o programa do antigo curso ginasial, atual 2º ciclo do ensino básico.
E os termos, “moderna ou novíssima” se orientam pelo “novo tratamento a temas da língua” e com isso, assinalam para uma abordagem menos clássica ou tradicional. Um dos livros de Evanildo Bachara, por exemplo, é assim apresentado pelo autor, ao incluir “análise literária”.
O mais antigo livro de gramática do AHLE é de 1924, editado pela Fco. Alves, Grammatica Portugueza, de Alfredo Gomes, já na 24ª edição. Outro livro com o mesmo título, de 1925, tem autoria de João Ribeiro, cuja 1ª edição data de 1921.
O AHLE disponibiliza para a pesquisa dezenas de livros com o título de "gramática" e outros tantos livros específicos de regras gramaticais, tais como: sintaxe de construção, crase, correção de frases etc.
 Afinal, última flor do Lácio, inculta e bela, já dizia o poeta.

Notas:




[i] Prefácio de ALMEIDA, Napoleão Mendes. Gramática Metódica da Língua Portuguesa. SP, Saraiva, 1958.