Acervo Histórico do Livro Escolar - AHLE

O ACERVO HISTÓRICO DO LIVRO ESCOLAR é formado pelo conjunto de livros escolares das antigas bibliotecas públicas infantis da cidade de São Paulo.

Com 5 mil volumes, o Acervo é composto por cartilhas, manuais escolares de todas as matérias de ensino, antologias literárias e livros de referência de uso escolar, entre outros, do século XIX até a década de 1980 e abrange os cursos primários, os secundários, os de formação de professor e o ensino técnico.
O Acervo está localizado na Biblioteca Infantojuvenil Monteiro Lobato, equipamento da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.

Neste blog serão publicadas informações sobre esse acervo.


Seja bem-vindo.







sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

O ensino da Língua Portuguesa e Humberto de Campos




Humberto de Campos (1886-1934) em Os males do ensino primário[1] escreveu que nunca se meteu em conspiração, mas se as crianças do país se reunissem para linchar um gramático ou um professor de português, que contassem com ele para uma primeira paulada.
O que levaria um renomado jornalista e escritor a fazer tamanha declaração? O que teria o autor contra os gramáticos ou o ensino da língua nas escolas?  Pois o que Humberto de Campos menciona em seu texto era e talvez ainda seja, uma prática pedagógica onde conteúdos e formas de ensino nem sempre são compatíveis com a idade, com a possibilidade cognitiva das crianças ou mesmo com seus interesses.
Claro que hoje em dia tudo isso mudou e faz parte de uma preocupação permanente da didática e das práticas de ensino nas escolas e nos cursos de formação de professores fazer essas adequações.
Mas o exemplo que eu trouxe quase como uma provocação é elucidativo de quantas vezes a escola fica desinteressante, longe dos anseios das crianças e muitas vezes, apresenta dificuldades que não deveriam existir. Não defendo aqui que aprender é sempre muito fácil, ligeiro ou sem uma dose de esforço.
Ora, a curiosidade e a vontade de conhecer são naturais. Qual criança não faz perguntas, não manifesta interesse por isso ou aquilo? Porque há de ser diferente quando entra na escola?
Já ouvi de muitas crianças e jovens que foram obrigados a ler extensos romances que não lhe chamavam a atenção ou que gramática é muito, mas muito complicado. Impossível até.
A educação escolar é uma etapa fundamental na vida das crianças e mostrar uma preocupação para que seja cada vez melhor é um dos objetivos deste curto texto. 
Outro foi trazer a baila Humberto de Campos, que não foi autor de livros didáticos, mas produziu uma vasta obra ao abordar assuntos como a escola e a educação, tendo como cenário as primeiras décadas do século XX.
Ilustro com dois livros próximos ao tema que postei. Um é de Psicologia da Educação e o outro,  sobre práticas de ensino. Esses e inúmeros livros de ensino da Língua Portuguesa, como também livros de formação de professores o AHLE resguarda para pesquisadores e interessados. 




[1] CAMPOS, H. Reminiscências... Obra póstuma. Rio de Janeiro, W. M. Jackson Inc. 1951. A primeira edição foi em 1935.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

MATEMÁTICAS E GEOMETRIAS


Como método fundamental das ciências, a observação foi a origem de tantas descobertas e explicações sobre o mundo em que vivemos.  Questões do cotidiano e necessidades práticas ajudaram a desenvolver o que sabemos hoje em todas as áreas do conhecimento.
Pois o Acervo Histórico do Livro Escolar – AHLE contribui, senão para o desenvolvimento científico, ao menos para a recuperação histórica de como as ciências eram e ainda são ensinadas nas escolas.
Nesta postagem abordo livros antigos de Geometria. De origem grega, a palavra significa  “medir a terra” (geo-terra, metria).
Necessidades do dia a dia tais como: áreas de plantio, definição de fronteiras, delimitação de posse de terras, construção, entre outras, iniciaram esses cálculos e fórmulas. Foi com o matemático grego Euclides (325-265 a.C) que a Geometria desenvolve-se como ciência.
Para alguns educadores o ensino da geometria não é prestigiado nas aulas de matemática, ficando muitas vezes por último nos planos de curso.
O AHLE resguarda centenas de livros escolares de matemática, álgebra e geometria. Os mais antigos são: Elementos de Geometria de 1892; Elementos de Álgebra, de 1912 e Arithmetica para o curso primário, de 1918.
Quem sabe essas informações que divulgam o Acervo inspirem para uma história do ensino da matemática. Fica aqui a sugestão.


Obs. As ilustrações desta postagem são do livro Elementos de Geometria de 1896 e tem como autoria a sigla F.I.C. que significa a série de livros das escolas da Congregação Fréres de L’Instruction Chrétiene.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Sergio Buarque de Hollanda e os livros didáticos de história



São vários os autores que se dedicaram à ficção, a ensaios ou a publicação de livros de teoria e de análise sobre a história e a realidade brasileira e também se dedicaram, em algum momento, a escrever livros didáticos ou de uso escolar para crianças e jovens.

Destaco nesta postagem um desses nomes: Sergio Buarque do Holanda (1902-1982), autor, entre outros livros, de Raízes do Brasil (1936),[1] considerado um dos importantes títulos da moderna historiografia brasileira.
Sobre livros didáticos Sergio Buarque dirigiu pela Cia Editora Nacional, nos anos de 1970, a Coleção Sergio Buarque de Hollanda, com outros autores, como Carla de Queiroz, Sylvia Barboza Ferraz e Virgílio Noya Pinto e assessoria didática complementar de Laima Mesgravis.

Editada entre 1971 e 1989 e composta por livros para as séries ginasiais ou 5ª a 8ª série do 1º grau (de acordo com as mudanças nos nomes  dos cursos), essa coleção foi considerada inovadora como livro escolar de história, tanto em relação à didática e a apresentação dos conteúdos, quanto às ilustrações.[2] 

O AHLE mantém: Das origens à Independência, de 1971 e Da Independência aos nossos dias, de 1972 e 1977 e História da Civilização, para as 7ªs e 8ªs séries do 1º grau (1975), todos pela Cia Ed. Nacional.

Sobre as denominações dos cursos, conforme as diferentes leis do ensino, esclareço a seguir: os cursos ginasiais, com duração de quatro anos eram voltados para alunos entre 10 e 14 anos. Esse curso foi substituído, segundo a Lei n. 5692/71 pelo 1º grau (5ª, 6ª, 7ª e 8ª series) e atualmente corresponde ao 2º ciclo do Ensino Fundamental.

O AHLE resguarda centenas de livros de história muito procurados por pesquisadores. Um dos mais antigos é Resumo da História do Brazil, de José E. C. de Sá e Benevides, editado pela Francisco Alves, 1915, 10. edição.


Notas:



[1] Uma edição comemorativa dos 70 anos desta publicação, em 2006, foi organizada por Ricardo Benzaquen de Araújo e Lilia Moritz Achwarcz. Publicado pela Cia das Letras, reuniu prefácios e introduções ao livro, além de novas contribuições escritas especialmente para a edição.

[2] Verificar: MÁSCULO, Jo´se Cássio. A coleção Sérgio Buarque de Hollanda: livros didáticos e ensino de história. Tese (doutorado), PUCSP, 2008.




segunda-feira, 28 de novembro de 2016

PRÁTICAS DE LEITURA DE TEXTOS LITERÁRIOS NO LIVRO DIDÁTICO



Faço aqui algumas especulações sobre a escola como um dos espaços de formação de leitores. Afinal, ler é um hábito que se forma e é na família, que na maioria das vezes, isso acontece pela aproximação com livros, revistas, gibis, jornais e com adultos que lêem para si e para a criança. Claro que atualmente o texto escrito está também em computadores, celulares, e-books etc. e tal, mas isso não anula a formação do hábito da leitura.

Essa iniciação, que nem todos têm junto à família, envolve ainda mais  o papel da escola na formação da criança leitora e com isso, a utilização do livro didático como uma dos instrumentos para essa   formação.

Desde os livros de primeiras leituras com textos literários infantis,  até as antologias literárias, o livro didático foi e ainda é um material indispensável para abordar textos de literatura e aproximar alunos e alunas com autores mais consagrados, clássicos, contemporâneos e populares. (1)
(1944)

Algumas ideias podem contribuir para essa prática. Por exemplo, conhecer uma biblioteca, mas demoradamente, deixando a criança se aproximar dos livros; incentivar a ‘contação’ de histórias; propor a “hora da leitura”; proporcionar encontros com autores; respeitar  a iniciativa do estudante; transitar por vários gêneros desde a poesia, a crônica, o conto, o romance ou textos opinativos e principalmente,  não impor textos sem conexão com alguma questão de contexto. Mesmo autores de séculos passados têm vínculo com temas que são universais e atemporais. Esse é um dos mais importantes predicados das artes em geral e da literatura em particular.
(1962)

Alguns entraves que podem dificultar a prática da leitura literária na escola: a opinião sedimentada de que o aluno ou aluna não gostam de ler ou mais, “as novas gerações não lêem”; falta de material ou de um ambiente propício; bibliotecas pouco convidativas e também o fato de que nem sempre o professor é um leitor.

Bem toda essa especulação sobre leitura literária e livro didático teve o propósito de trazer alguns livros de leitura na escola de tempos atrás, livros que o ACERVO HISTORICO DO LIVRO ESCOLAR – AHLE mantém em seu acervo.
Afinal não é com a história que apreendemos melhor os tempos atuais? Ou que ao menos nos provoca uma atitude reflexiva e a compreensão da construção de práticas pedagógicas? Ora, estudos comparativos, de métodos, contrastes entre textos e períodos históricos são perspectivas de pesquisa que estimulam novas abordagens. E muitas vezes, não tão novas assim.


Notas:


(1) Uma dissertação de mestrado que aborda essas questões e traz uma bibliografia significativa: Feitosa, Márcia Soares Araujo. Prática docente e leitura de textos literários no Fundamental II: uma incursão pelo programa Hora da Leitura. Mestrado, Faculdade de Educação da USP, 2008. Acessado em 28/11 http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

NOVO MANUAL DE LINGUA PORTUGUEZA (1916)




 Novo Manual de Lingua Portugueza (grafia reproduzida na forma literal do livro) é um desses títulos que chama a atenção pela autoria: “por uma reunião de professores”, pela indicação do método: “grammatica pouca, exercícios muitos” e claro, pela antiguidade.
Esse exemplar é de 1916, como "nova" edição, o que nos permite avaliá-lo como mais antigo ainda. Seu conteúdo trata da gramática, da lexicologia, da analyse (gramatical) e da composição, segundo explicações da capa.
Editado pela Livraria Francisco Alves & Cia., editora também de livros didáticos, pertence à coleção F. T. D. Essa sigla é em homenagem à Frere Theophane Durand, do Instituto Marista, ordem religiosa de origem francesa. 
A FTD tornou-se uma editora no Brasil, ainda atuante. O livro em questão faz parte dessa coleção didática que os Irmãos Maristas produziram na época, além de obras para o ensino religioso e é voltado para os cursos secundários.
A respeito dos cursos secundários, "no período da Primeira República (1889-1930), para o ensino secundário, a União tinha como responsabilidade manter o Colégio Pedro II, e os Estados, apenas um ginásio-modelo nas suas capitais. Esses ginásios se submetiam às diretrizes curriculares daquele. Boa parte das escolas secundárias, então, eram mantidas pela iniciativa privada." (1) 
Uma das lições do livro
Sobre esse Novo Manual..., sua divisão, a didática usada  e a apresentação de conteúdos fazem dele um  exemplar de pesquisa sobre o ensino da Língua e também sobre a sua história. O fato de ser produzido por professores é um indicativo precioso de como era ou ao menos de pensava, em sala de aula, a instrução da língua para o curso secundário na época.
Tanto como exemplar de recuperação histórica, quanto de análise comparativa, este livro pertence àqueles que são raros e merecem ser conhecidos pelas informações que traz.
Outros livros de Gramática ou de Língua Portuguesa são resguardados pelo AHLE, como  também livros escolares para o ensino secundário. O histórico desse grau de ensino é sintomático como parâmetro para avaliarmos o interesse despertado por esses cursos nos dias atuais.

Notas:

(1) Verificar: LOPES Silvana Fernandes. A Educação Escolar na Primeira república: a perspectiva de Lima Barreto. Acesso: http://www.histedbr.fe.unicamp.br/






segunda-feira, 31 de outubro de 2016

ARNALDO DE OLIVEIRA BARRETO

São vários os autores de livros escolares em um acervo com cinco mil títulos. Mas alguns se destacam pela quantidade de livros que escreveram, pela especialidade das matérias de ensino que se dedicaram, pela curiosidade sobre a abordagem de determinados temas, pela antiguidade ou  pela formação que tiveram, entre outros fatores.
Arnaldo de Oliveira Barreto (1869-1925) é um desses autores. Inspetor da seção masculina da Escola Caetano de Campos,(1) Barreto escreveu muitos livros escolares e de leitura para crianças.
Foi um dos organizadores da coleção Biblioteca Infantil, da Editora Melhoramentos, no inicio do século XX.  Eram livros que estimulavam a leitura com pequenas histórias já consagradas do universo infantil (neste blog já escrevi sobre essa série).
O ACERVO HISTÓRICO DO LIVRO ESCOLAR – AHLE mantém vários livros deste autor, além dos publicados pela coleção citada. Enumero alguns a seguir:
A pobre abelhinha- leituras extra escolares para meninos de mais de 12 anos. Typ. Siqueira, 1926, provavelmente sobre sua experiência no Caetano de Campos.
Corações de criança. Leituras preparatórias.  Ed. Francisco Alves, 1918.
Cartilhas das mães. Ed. Fco Alves, 1960, 82ª edição. A primeira edição deste livro foi em 1895.
Organizou o livro de Mme. Leprince de Beaumont: O Bazar das creanças diálogos de uma sabia preceptora com suas discípulas, Ed. Garnier, Tomos I e II.
Expomos nas ilustrações outro livro com a organização de Barreto: Vários Estylos – selecta de trabalhos literários de autores modernos e contemporâneos para uso nas classes de gymnasios e Escolas Normaes. Ed. Melhoramentos, 1910 (?), 6ª ed. 
Este último é uma antologia que reúne pequenos textos de autores nacionais e estrangeiros. As ilustrações trazem Olavo Bilac e Vitor Hugo.
O AHLE mantém centenas de títulos de livros de uso escolar com textos literários voltados para os cursos elementares, secundários e de formação de professores.
Indico o site http://www.unicamp.br/iel/memoria/  para aqueles que se interessam pelo tema e também convido-os a pesquisar no nosso ACERVO.

Notas:
(1) Era usual a separação dos gêneros nas escolas. Sobre a Escola Caetano de Campos, verificar, entre outros trabalhos: MONARCHA, Carlos. A escola norma da praça - o lado noturno das luzes. Campinas, Ed. UNICAMP, 1999.


quarta-feira, 19 de outubro de 2016

SOBRE LIVROS ANTIGOS E RAROS



Sobre livros antigos que influenciaram de alguma maneira a atuação do professor em sala de aula, nem sempre se consegue fazer afirmações certeiras. Mas se considerarmos que o livro em questão fez parte do acervo de uma Biblioteca Infantil, que teve um projeto de educação e de cultura[1], fica mais fácil ao menos levantar algumas hipóteses sobre a influência do livro por educadores.
É o que acontece com As sortes de Physica Recreativa, dos professores mais célebres, antigos e modernos, livro que ensina mágica e desvenda magias com explicações e ilustrações. Completando ainda os dizeres da capa: meios maravilhosos, fáceis e baratos de rir e instruir-se.
De autoria de Gastón Robert,  tratasse de nova edição ilustrada com 50 figuras explicativas. O livro data de 1893 e foi editado pela B. L. Garnier, do Rio de Janeiro.
Segundo o prefácio o livro faz parte de uma trilogia que Decremps chamava verdadeiro breviário do Farcista de bom tom. Henri Decremps (1746-1826) foi um mágico francês que publicou A magia branca revelada, desvendando as técnicas usadas para iludir.
Bem, eis um livro raro do século XIX, como outros que pertencem ao ACERVO HISTORICO DO LIVRO ESCOLAR – AHLE. Este provavelmente não foi usado em sala de aula, mas compôs o acervo de uma biblioteca infantil que teve papel fundamental na educação das crianças desde a década de 1930. Não foi a toa que o livro freqüentou as prateleiras dessa Biblioteca.

Notas

[1] Trata-se da Biblioteca Infantil Municipal, criada em 1936, como parte de um projeto de cultura implementado na cidade de São Paulo pelo Departamento de Cultura, na época, dirigido por Mário de Andrade.