Acervo Histórico do Livro Escolar - AHLE

O ACERVO HISTÓRICO DO LIVRO ESCOLAR é formado pelo conjunto de livros escolares das antigas bibliotecas públicas infantis da cidade de São Paulo.

Com 5 mil volumes, o Acervo é composto por cartilhas, manuais escolares de todas as matérias de ensino, antologias literárias e livros de referência de uso escolar, entre outros, do século XIX até a década de 1980 e abrange os cursos primários, os secundários, os de formação de professor e o ensino técnico.
O Acervo está localizado na Biblioteca Infantojuvenil Monteiro Lobato, equipamento da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.

Neste blog serão publicadas informações sobre esse acervo.


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sexta-feira, 2 de março de 2012

Contos de Fadas nos Livros escolares

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Neste ano de 2012 comemoram-se os 200 anos da publicação dos “Contos da Criança e do Lar”, escrito pelos irmãos Grimm, autores de histórias infantis consagradas e livro considerado patrimônio mundial pela UNESCO.
Jacob (1785-1863) e Wilhelm (1786-1859) nasceram na Alemanha e tornaram-se conhecidos ao reunirem narrativas da memória popular de tradição oral, origem de vários de seus contos.
Contos de encantamento ou maravilhosos foram utilizados nas escolas, nos livros de leitura, ao lado das narrações árabes e do folclore brasileiro.



Alguns exemplos dessas histórias estão na série Biblioteca Infantil organizada por educadores e publicada pela Editora Melhoramentos no início do século 20, serie que compõe o acervo do AHLE. (2)



Literatura infantil e livro escolar caminharam juntos nas primeiras produções de livros de leitura para a escola. Eram comuns séries de livros denominados Leitura Recreativa Escolar ou coleções de livros de leitura organizados por educadores e, ainda, professores escreverem livros de leitura para as crianças.



Essa fase antecedeu novos ares preconizados por movimentos de renovação educacional que se consolidaram no país nos anos de 1930, quando a produção de livros didáticos para cada matéria de ensino se intensificou.





Ilustrações:



(1) OLIVEIRA, Alaide Lisboa de. Meu coração. SP, Cia Ed. Nacional, 1963.






(2) Idem p.40.






(3) SANTOS, Theobaldo Miranda. Vamos estudar - 1ª serie primária.RJ, Agir, 1965.





segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Fábulas e Educação



No universo da literatura infantil, a fábula é considerada um gênero literário didático e foi muito usada nas escolas como instrumento educativo, principalmente nas primeiras décadas do século XX.
Na definição do Dicionário Houaiss, fábula é narração popular de fatos imaginados; curta narrativa em prosa ou verso que ilustra um preceito moral; história fantasiosa. Fabular é sinônimo de fantasiar e fabuloso significa o que ultrapassa a imaginação: que sendo real, parece imaginário, incrível. Geralmente as fábulas usam animais como protagonistas.
O ACERVO HISTÓRICO DO LIVRO ESCOLAR – AHLE mantém livros escolares e paradidáticos (livros usados como apoio: os livros de leitura e as antologias literárias, por ex.) que contém fábulas como recurso didático.
Destaco Poesias Infantis[1] de Olavo Bilac (1865-1918) poeta parnasiano que produziu inúmeros livros escolares. Com 1ª edição em 1904, (até 1961, foram publicadas 27 edições), esse livro traz poemas adaptados de fábulas famosas, como a Cigarra e a Formiga. Na capa, a menção para o seu uso: “Livro approvado, adoptado e premiado pelo Conselho Superior de Instrução Pública do Distrito Federal”.
Outro livro é Fábulas imitadas de Esopo e de La Fontaine adotadas para leitura escolar.[2]
Como esse gênero de literatura era usado nas práticas educativas? Bem, ilustro com um exercício contido no livro Novo Manual de Língua Portugueza para uso nas escolas secundárias[3]. Na página 271, no subtítulo Leitura e Recitação há a fábula A Cigarra e a Formiga e logo abaixo um exercício chamado Estudo Analítico, com as seguintes questões:

a) A qual bichinho dais vossa simpatia e porque?
b) Como chamais o defeito da cigarra?
c) E o da formiga?
d) Que exemplo tiramos dessa fábula?

Em uma pesquisa no ACERVO HISTÓRICO DO LIVRO ESCOLAR encontramos inúmeras fábulas, principalmente em livros de leitura, o que demonstra o largo uso desse gênero literário nas escolas.
A literatura infantil, entre outras funções, fornece exemplos, modelos de comportamento, valores morais a serem seguidos etc., muitas vezes sem questionamento, nem contexto.
Por que a fábula foi e ainda é usada como recurso didático? Eis algumas especificidades da fábula, que facilitam o seu uso para crianças:

* São textos curtos, concisos; não cansam e rapidamente concluem uma história. Por serem curtas, as fábulas são facilmente memorizadas e se prestam a exercícios de reescrita.
* Antes mesmo dos 6 anos, quando inicia-se a aquisição da técnica da leitura, a fábula estimula a imaginação infantil, a criatividade etc.
* Ausência de indicações precisas de tempo e espaço. “Um regato, uma floresta, muito longe daqui, há muito tempo atrás...”
* Trazem, na maioria das vezes, animais como personagens, o que seduz a criança;
* Traduzem certos comportamentos e com isso demonstram uma simbologia que é universal.
As fábulas apresentam um universo simbólico de sentimentos que permeia a sociedade. Contém valores e situações comuns a todos.
Com isso, ao mesmo tempo que desperta o interesse pela leitura, com textos não cansativos, a fábula transmite valores e comportamentos. Mas quais?
Em uma leitura mais demorada, por exemplo, o que vemos?
Virtudes como bondade, solidariedade, compreensão, paciência, ao lado de certa esperteza, astúcia, vingança, maldade etc.
Muitas chegam à violência: a tartaruga que fala muito, cai e se despedaça; a formiga deixa a cigarra morrer de fome; o lobo esquarteja e come o cordeiro; a raposa que fica sem os olhos etc.
A moral das fábulas adquiriu vida própria e se transformou em provérbios: frases prontas, vindas do conhecimento popular, transmitidas oralmente e que encerram certo ensinamento sob algum aspecto da vida e na maioria das vezes, conservam um quadro de valores. Quem já não ouviu “Devagar e sempre se vai ao longe”, menção à fábula A lebre e a tartaruga de Esopo?
Bem a possibilidade de usar o fantástico, sem dúvida é um atrativo para crianças e jovens. Então, como usar hoje o gênero fabular? Quais valores nós queremos transmitir?
Histórias que não reafirmem preconceitos; que traduzam a diversidade, a convivência com o diferente, a solidariedade; a afetividade; a relação mais adequada com a natureza e principalmente e aí, diferentemente das fábulas tradicionais, que nada está dado como se sempre fosse assim e que podemos alavancar mudanças.









[1] BILAC, Olavo. São Paulo, Francisco Alves, 1924.
[2] ROCHA, J. J. São Paulo, Livraria Francisco Alves, 1913.
[3] Por uma reunião de professores. Livraria Francisco Alves, 1916.