Acervo Histórico do Livro Escolar - AHLE

O ACERVO HISTÓRICO DO LIVRO ESCOLAR é formado pelo conjunto de livros escolares das antigas bibliotecas públicas infantis da cidade de São Paulo.

Com 5 mil volumes, o Acervo é composto por cartilhas, manuais escolares de todas as matérias de ensino, antologias literárias e livros de referência de uso escolar, entre outros, do século XIX até a década de 1980 e abrange os cursos primários, os secundários, os de formação de professor e o ensino técnico.
O Acervo está localizado na Biblioteca Infantojuvenil Monteiro Lobato, equipamento da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.

Neste blog serão publicadas informações sobre esse acervo.


Seja bem-vindo.







segunda-feira, 26 de abril de 2010

São Paulo nos livros escolares

O Estado de São Paulo atualmente está representado nos livros escolares nas disciplinas de História e de Geografia, didaticamente como história regional.(1) Mas nem sempre foi assim. Desde o século 19 livros escolares de várias matérias e diversos graus de ensino retrataram esse Estado como precursor do desenvolvimento do país. Isso porque São Paulo destacou-se como produtor de café, o que acelerou seu crescimento.
Já no século 20 o processo de industrialização tornou São Paulo um centro urbano emergente e palco de rápidas mudanças. O automóvel foi o meio de transporte mais incentivado a partir dos anos de 1960. Os movimentos migratórios para o trabalho nas multinacionais automobilísticas e, nos anos de 1970, na construção civil, aumentaram a demanda por serviços, moradia e infra estrutura. Enfim, o Estado e principalmente a cidade de São Paulo sofreu intensas e vertiginosas transformações, tornando-se uma das principais cidades da América Latina.
O Bandeirante, figura polêmica e legendária, mas personificada como valente, de larga estatura e destemida, é identificado com São Paulo. Certa “paulistanidade” exerceu fascínio entre paulistas e paulistanos. Pudera, movimentos culturais como a Semana de Arte Moderna de 1922 culminaram em orgulho para os da terra. Em 1932, a Revolução Constitucionalista, produto da perda da hegemonia de São Paulo frente a reorganização do modelo político e econômico do país, imprimiu ainda mais a imagem de irradiador do desenvolvimento desse Estado. Enfim, o regionalismo, em alguns dizeres da época, foi justificado como componente para o fortalecimento de um país com o tamanho e as especificidades do Brasil. A ideia de nação e a integração nacional eram ainda recentes.
Tudo isso, de uma forma ou de outra, está retratado nos livros escolares, o que nos leva a refletir sobre a ampla área de conhecimento que o estudo e a pesquisa no livro escolar pode abranger.
Trago alguns exemplos, nas diversas épocas, de como São Paulo foi abordado nas escolas.


AMARAL, Tancredo. Historia de São Paulo. RJ, Alves e Cia. Editores, 1895.



Neste livro de Educação Cívica do fim do século 19 nota-se que a preocupação na formação da nacionalidade e do patriotismo incide com exemplos de “homens célebres”. Afinal a República era recente e o país precisava fortalecer princípios cívicos.





POMBO,Rocha. História de S.Paulo (resumo didactico). S. Paulo, Melhoramentos, 1923. (1ª ed. em 1918).

Livro destinado as classes primárias e ricamente ilustrado com mapas e reprodução de documentos.





In: POMBO (1923).
Reprodução do Jornal “O Farol Paulistano”, fundado em 1827, que circulou até o inicio dos anos de 1830 na cidade de S.Paulo.







FILHO, Lourenço. Viagem através do Brasil, São Paulo. S.P., Melhoramentos, V. 9, 1955.
Esse livro compõe uma série transmitida pelo Programa Infantil da Rádio Jornal do Brasil, de agosto de 1936 a agosto de 1937. Segundo a apresentação da coleção, “a finalidade dessa Viagem foi dar aos seus ouvintes uma idéia do que é o nosso Brasil, mostrando-lhes os seus usos e costumes, seus homens e sua geografia, sua história e seus recursos naturais”.

(1) São várias as divisões da História. Verificar: BARROS, José D'Assunção. O Campo da História - Especialidades e Abordagens. Petrópolis, Vozes, 2004. Esse livro aborda, de forma bem didática, essa e outras questões sobre a historiografia.

terça-feira, 16 de março de 2010

Mulher nos Livros Escolares








Dia 08 de março comemora-se o Dia Internacional da Mulher. Protestos de mulheres operárias no início do século 20 nos EUA e movimentos feministas e de emancipação das mulheres nos anos de 1960 deram origem à oficialização dessa data.


(1)
No Brasil, a Lei Maria da Penha de 2006 aumentou o rigor quanto às agressões domésticas contra as mulheres, fato ainda presente na nossa sociedade e demonstrativo que há muito que fazer nesse sentido.

O mercado de trabalho também apresenta distorções em relação a mulher trabalhadora. E mais, as dificuldades da dupla ou tripla jornada, as chefas de família exercendo várias funções e a luta para se impor como cidadã e companheira. Nisso, nem sempre a mídia ajuda.




(2)



Na História da Educação há muitos trabalhos que tratam de questões de gênero. Ora, o livro didático como fonte de pesquisa traduz muito da nossa cultura e nesse sentido reproduz aspectos presentes em determinado contexto. Quanto aos estudos sobre gênero, sem dúvida esse material é bem ilustrativo por trazer como determinados fatos foram e são tratados na escola. Por isso a importância de analisá-lo em uma perspectiva histórica.


(3)

                                                              


(4)

 Algumas ilustrações em livros de uso escolar do AHLE revela-nos como a mulher foi considerada com funções e direitos diferenciados aos dos homens e também as mudanças ocorridas com os movimentos de liberação feminina e a presença da mulher em várias instâncias sociais.























Ilustrações:





(1) BILAC, Olavo. “Poesias Infantis”. São Paulo, Francisco Alves, 1924.
Na capa somente meninos lendo. A escolarização feminina, no início do século 20, não era prioritária.



(2) Lourenço, Filho. "Pedrinho e seus amigos". SP, Melhoramentos, 1963.
      O trabalho doméstico feminino é reforçado.


(3) SERRANO, Isabel. “Quando você casar”. RJ, Ed. A Noite, anos 50.

(4) “Programa Escolar de Pesquisa”. Curitiba. Grafipar, 1978.
O ingresso das mulheres na Universidade a partir da década de 1960.



 

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Cartilhas e lembranças

(1)



Cartilhas lembram infância, professora primária (a antiga normalista, tão cantada pelos músicos e poetas), as atuais pedagogas, “decoreba” e muito, muito encantamento.
Encantamento porque a cartilha foi e ainda é o meio pelo qual entramos no mundo da leitura.
A origem da palavra cartilha é latina: pequeno caderno que contem as letras do alfabeto. Diminutivo de carta ou de caderno. Carta do ABC. Do grego, temos khártes: folha de papiro de onde vieram carta e carteira.

Muitos consulentes procuram o ACERVO HISTÓRICO DO LIVRO ESCOLAR - AHLE para “matarem a saudade”.

- Você tem a “Cartilha Sodré?” Eu só quero olhar.
- Eu preciso encontrar a cartilha do “Patinho”. Sabe? Aquela que tem um patinho na capa. Acho que era amarelo. Quero mostrar para o meu filho. Dá para xerocar?
- Será que tem a "Caminho Suave" de 1962? Foi essa que perdi em uma enchente. Não foi agora, não. Faz tempo.
- Olha, fui alfabetizada no Maranhão. Será que encontro a minha cartilha nesse acervo? Não lembro o nome, mas se vejo a capa...

(2)


Um acervo, seja qual for, tem realmente várias funções. A idéia de formar o AHLE foi com o objetivo de organizar fontes de pesquisa, pois o livro didático é um material com inúmeras possibilidades de estudos. Esse objetivo é contemplado com a presença de pesquisadores, estudantes de graduação e consultas por emeio.
Mas, sem dúvida, despertar lembranças tem-se mostrado outra vocação desse acervo.
O AHLE conta com duzentos exemplares, entre cartilhas e primeiras leituras, desde 1894 até meados da década de 1970.

Como exemplo, a cartilha mais antiga do acervo: "Primeiro Livro de Leitura" (ilustração de capa no texto anterior), da Profa Maria Guilhermina Loureiro de Andrade, data de 1894 e foi editado pela American Book Company, em Nova Iorque. A autora foi a primeira diretora da Escola Modelo, em 1890, quando da reforma da Escola Normal de São Paulo.(3) O livro apresenta 78 lições, por meio de sentenças e com pequenas ilustrações.
Os métodos, os temas e a apresentação gráfica das cartilhas compuseram e compõem a cultura escolar. (4)
Método sintético? Analítico? Construtivista? Misto? O fato é que a cartilha, com mudanças ao longo do tempo, ainda permanece.
(5)

(1) SÃO JOÃO, Helena Ribeiro. "Nossa Cartilha". RJ, Fco. Alves, 1959.
(2) AMOROSO, Cecilia B. dos Reis. "Onde está o patinho?" S.Paulo, Melhoramentos, s/d.
(3) Sobre a Escola Normal de São Paulo, entre outros, verificar MONARCHA, Carlos (1999). "Escola Normal da Praça: o lado Noturno das Luzes." Campinas, UNICAMP.
(4) Vários autores trabalham com a temática da cartilha. Verificar, entre outros, MORTATTI, Maria do Rosário Longo. "Cartilha de alfabetização e cultura escolar: Um pacto secular". Cadernos Cedes, ano XX, no 52, novembro/2000.


(5) OLIVEIRA, Mariano de. "Cartilha Ensino-rápido da leitura".São Paulo, Melhoramentos,1963.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Significar o guardado



Um dos livros mais antigos do ACERVO HISTÓRICO DO LIVRO ESCOLAR - AHLE
ANDRADE, Maria Guilhermina L. de. Primeiro Livro de Leitura. Rio de Janeiro. Ed. American Book Company , 1894.
AHLE - Um ano do blog

O tempo passa rápido. Expressão corriqueira que me inspira para relatar sobre a experiência deste Blog. Já um ano? Contraditoriamente o tempo seleciona. Por que? Para quem trabalha com a preservação de fontes para a pesquisa, o tempo quase sempre é atributo.
Em relação ao livro escolar, objeto central deste Blog, duas considerações sobre esse material: primeira, livros escolares são raros porque são descartados e com isso, raros porque escassos. Segunda, raros porque antigos? Não é bem assim. Não é só a antiguidade uma qualidade, mas também a forma, o conteúdo e o que representa a fonte de pesquisa.
Revisitei algumas definições para compreender melhor o significado deste acervo.(1) Desse modo, no exame do conceito de “acervo”, palavra de origem latina que significa acumulação e muitas vezes referenciada como velharia, vem a idéia de passado, da acumulação de indícios, que se materializam em documentos, em bens ou em patrimônio. A quantidade é uma das variantes a que se submete o acervo que compõe os arquivos, as bibliotecas, os museus e os centros de documentação, onde encontramos um conjunto desses indícios, identificado com o que denominamos fontes de pesquisa.
Por outro lado, o termo “fonte” está associado à origem, à procedência, a fonte de consulta que fornece informações. Na filologia, área do conhecimento que privilegia o estudo de documentos escritos antigos, fonte é termo identificado como texto ou documento original. As fontes de pesquisas e as discussões em torno da especificidade desses documentos fazem parte de estudos como o de RODRIGUES (2) (1969, p.143), que nos informa sobre os instrumentos dos trabalhos históricos, classificando-os em fontes primárias ou originais, como aquelas que contém informações de testemunho direto dos fatos e fontes secundárias ou derivadas, que contém uma informação colhida por terceiros. Nesse sentido, o livro escolar pode ser fonte primária ou secundária de pesquisa, de acordo com o seu conteúdo.
Como usar essas fontes? Os livros escolares expressam idéias e assim, precisam ser historicizados, ou seja, entendidos a luz do contexto em que foram produzidos. Os textos deste Blog apresentaram, mesmo que de forma breve, essa preocupação.
O Blog teve treze textos ao longo de 2009. Fora o de abertura, os outros foram temáticos e descritivos com o objetivo de divulgar certas especificidades do ALHE. O próprio trabalho de pesquisa para essa divulgação, o atendimento a pesquisadores aqui na Biblioteca ou pelo emeio, abrem cada vez maiores possibilidades do acervo. Temas nem pensados, tornaram-se mais uma área de pesquisa. Como exemplo, o Design. Estudantes se interessaram pelas ilustrações, pelo formato, capa etc., ou seja, pelo suporte material dos livros ao longo do tempo.

Como arquivar é uma palavra que pode significar guardar, no sentido de deixar de lado e esquecer, aqui a preocupação é guardar para extroverter. É através de ações que o guardado se revela e assim este Blog é um dos instrumentos que tenho para mostrar esse acervo e com isso imprimir um significado ao guardado.
Promessa para o próximo ano? Claro! Escrever mais e trazer mais informações sobre o AHLE.

(1) Parte dessas definições foi desenvolvida no texto: Acervo de fontes de pesquisa para a História da Educação brasileira: características e conteúdo, texto integrante do projeto: Navegando na História da Educação brasileira, disponível no site do HISTEDBR, relacionado neste Blog.

(2) RODRIGUES, João Honório. A Pesquisa Histórica no Brasil. S. Paulo, Cia Ed. Nacional, 1969.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

A presença do negro no livro escolar






Capa de livro didático, com o título Infância Brasileira retratando crianças loiras, tipo pouco comum no Brasil.
"Quarto livro", destinado ao curso primário.(1)



No mês de novembro comemoramos o Dia Nacional da Consciência Negro em homenagem à Zumbi dos Palmares, símbolo da resistência negra no país, morto em 20 de novembro de 1695.
Zumbi foi um dos líderes do Quilombo de Palmares, fundado em 1596 e localizado na Serra da Barriga, entre os Estados de Alagoas e Pernambuco.
Nos livros didáticos a presença da população negra vem carregada de preconceitos, de distorções e de omissões.
Assim trago alguns exemplos de livros escolares cujas ilustrações e textos revelam que a presença do negro nesses livros, como integrante da população brasileira, é mais ou menos recente.
O negro aparece de forma secundária, quando se trata da abolição da escravatura, por exemplo, e geralmente é omitido como sujeito atuante na trajetória do Brasil.
Isso retrata a visão eurocentrista que influenciou a educação, excluindo a história africana, a luta e a participação da população negra na construção do país, o que só reforça preconceitos.







Atividades de trabalho onde o negro é omitido.
Livro de "literatura infantil e matérias escolares", destinado ao curso primário. (2)

A consagrada cartilha Caminho Suave (3) demonstra que nas edições mais recentes uma criança negra foi incluída na ilustração da capa.














Edição de 1985 Edição de 1962
O livro didático é uma fonte de pesquisa que traduz vários aspectos da história e da cultura. Pela diversidade do ACERVO HISTÓRICO DO LIVRO ESCOLAR sem dúvida a temática da população negra nos livros didáticos tem, nesse acervo, inúmeras possibilidades de pesquisa.
Alguns trabalhos acadêmicos nos mostram como esse assunto tem sido bem explorado. (4)


(1) METTIG, O. e MAGALHÃES, M. L. Infância Brasileira. Salvador, Ed. do Brasil, 1962.
(2) SANTOS, T. M. Brasil minha pátria. SP, Agir, 1963.
(3) LIMA, Branca Alves. Caminho Suave. Leitura intermediária. SP, Ed. Branca A. de Lima, 1962.
LIMA, Branca Alves. Caminho Suave. Renovada e ampliada. SP, Edipro, 1985.
(4) Entre outros: OLIVEIRA, Marco Antônio de. O negro no ensino de história: temas e representações. Dissertação (Mestrado em Educação) Universidade de São Paulo, 2000.
CRUZ, Mariléia dos S. A história da disciplina Estudos Sociais a partir de representações sobre o negro no livro didático (período 1981-2000). Dissertação (Mestrado em Educação), Universidade Estadual Paulista, 2000.
SILVA, Ana Célia da. O estereótipo e o preconceito em relação ao negro no livro de Comunicação e Expressão de primeiro Grau, nível I. Dissertação (Mestrado em Educação) Universidade Federal da Bahia, 1988.
__________________.
Da mesma autora: As transformações da representação social do negro no livro didático e seus determinantes. Tese (Doutorado em Educação) Universidade Federal da Bahia, 2001.
RAYNETTE , Castello Branco. O negro no livro didático de História do Brasil para o ensino fundamental II da Rede Pública estadual de ensino, no Recife. Mestrado, Universidade Federal de Pernambuco, 2005.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

SÉRIE “PEDRINHO”




Lourenço Filho (1897-1970) foi educador, autor de livros didáticos e organizador de várias coletâneas escolares.

A série de leitura graduada “Pedrinho”, de sua autoria, é composta de textos para serem usados nos primeiros anos escolares e foi publicada em 1955, com inúmeras edições.

Organizada para as escolas primárias, contém uma Cartilha, quatro livros para as séries do curso primário e um quinto para o aperfeiçoamento da leitura.

PEDRINHO é o nome do personagem do ‘Sítio do Pica Pau Amarelo’ de Monteiro Lobato. Será coincidência?
O ACERVO HISTÓRICO DO LIVRO ESCOLAR - AHLE disponibiliza para pesquisa vários títulos de Lourenço Filho, incluindo sua produção voltada para a formação de professores.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Fábulas e Educação



No universo da literatura infantil, a fábula é considerada um gênero literário didático e foi muito usada nas escolas como instrumento educativo, principalmente nas primeiras décadas do século XX.
Na definição do Dicionário Houaiss, fábula é narração popular de fatos imaginados; curta narrativa em prosa ou verso que ilustra um preceito moral; história fantasiosa. Fabular é sinônimo de fantasiar e fabuloso significa o que ultrapassa a imaginação: que sendo real, parece imaginário, incrível. Geralmente as fábulas usam animais como protagonistas.
O ACERVO HISTÓRICO DO LIVRO ESCOLAR – AHLE mantém livros escolares e paradidáticos (livros usados como apoio: os livros de leitura e as antologias literárias, por ex.) que contém fábulas como recurso didático.
Destaco Poesias Infantis[1] de Olavo Bilac (1865-1918) poeta parnasiano que produziu inúmeros livros escolares. Com 1ª edição em 1904, (até 1961, foram publicadas 27 edições), esse livro traz poemas adaptados de fábulas famosas, como a Cigarra e a Formiga. Na capa, a menção para o seu uso: “Livro approvado, adoptado e premiado pelo Conselho Superior de Instrução Pública do Distrito Federal”.
Outro livro é Fábulas imitadas de Esopo e de La Fontaine adotadas para leitura escolar.[2]
Como esse gênero de literatura era usado nas práticas educativas? Bem, ilustro com um exercício contido no livro Novo Manual de Língua Portugueza para uso nas escolas secundárias[3]. Na página 271, no subtítulo Leitura e Recitação há a fábula A Cigarra e a Formiga e logo abaixo um exercício chamado Estudo Analítico, com as seguintes questões:

a) A qual bichinho dais vossa simpatia e porque?
b) Como chamais o defeito da cigarra?
c) E o da formiga?
d) Que exemplo tiramos dessa fábula?

Em uma pesquisa no ACERVO HISTÓRICO DO LIVRO ESCOLAR encontramos inúmeras fábulas, principalmente em livros de leitura, o que demonstra o largo uso desse gênero literário nas escolas.
A literatura infantil, entre outras funções, fornece exemplos, modelos de comportamento, valores morais a serem seguidos etc., muitas vezes sem questionamento, nem contexto.
Por que a fábula foi e ainda é usada como recurso didático? Eis algumas especificidades da fábula, que facilitam o seu uso para crianças:

* São textos curtos, concisos; não cansam e rapidamente concluem uma história. Por serem curtas, as fábulas são facilmente memorizadas e se prestam a exercícios de reescrita.
* Antes mesmo dos 6 anos, quando inicia-se a aquisição da técnica da leitura, a fábula estimula a imaginação infantil, a criatividade etc.
* Ausência de indicações precisas de tempo e espaço. “Um regato, uma floresta, muito longe daqui, há muito tempo atrás...”
* Trazem, na maioria das vezes, animais como personagens, o que seduz a criança;
* Traduzem certos comportamentos e com isso demonstram uma simbologia que é universal.
As fábulas apresentam um universo simbólico de sentimentos que permeia a sociedade. Contém valores e situações comuns a todos.
Com isso, ao mesmo tempo que desperta o interesse pela leitura, com textos não cansativos, a fábula transmite valores e comportamentos. Mas quais?
Em uma leitura mais demorada, por exemplo, o que vemos?
Virtudes como bondade, solidariedade, compreensão, paciência, ao lado de certa esperteza, astúcia, vingança, maldade etc.
Muitas chegam à violência: a tartaruga que fala muito, cai e se despedaça; a formiga deixa a cigarra morrer de fome; o lobo esquarteja e come o cordeiro; a raposa que fica sem os olhos etc.
A moral das fábulas adquiriu vida própria e se transformou em provérbios: frases prontas, vindas do conhecimento popular, transmitidas oralmente e que encerram certo ensinamento sob algum aspecto da vida e na maioria das vezes, conservam um quadro de valores. Quem já não ouviu “Devagar e sempre se vai ao longe”, menção à fábula A lebre e a tartaruga de Esopo?
Bem a possibilidade de usar o fantástico, sem dúvida é um atrativo para crianças e jovens. Então, como usar hoje o gênero fabular? Quais valores nós queremos transmitir?
Histórias que não reafirmem preconceitos; que traduzam a diversidade, a convivência com o diferente, a solidariedade; a afetividade; a relação mais adequada com a natureza e principalmente e aí, diferentemente das fábulas tradicionais, que nada está dado como se sempre fosse assim e que podemos alavancar mudanças.









[1] BILAC, Olavo. São Paulo, Francisco Alves, 1924.
[2] ROCHA, J. J. São Paulo, Livraria Francisco Alves, 1913.
[3] Por uma reunião de professores. Livraria Francisco Alves, 1916.